23 novembro, 2012

FANTASMAS


                                                                      Bodil Frendberg

"Podemos trocar a ordem das perguntas?", diz o aluno durante o teste.
Há 26 anos que ouço a pergunta. Todos os anos, sempre, um eterno e fatal retorno. A mesma pergunta, sempre com o mesmo som e o mesmo significado, feita por garotos de 15 anos, cópias de cópias de cópias que reproduzem mecanicamente uma pergunta intemporal. Depois, saem da escola, vão fazendo 20, 30, 40 anos, mas é como se continuassem sempre lá, nas vozes de outros que, com as mesmas palavras, unem, num mesmo plano fonético, semântico e pragmático, o passado, o presente e o futuro. Basta ouvir um para ouvir todos os outros: a unidade na multiplicidade, o mesmo através do outro. Nenhuma diferença parece existir entre a consciência de quem com 15 anos em 1986 perguntava "Podemos trocar a ordem das perguntas?" e a consciência de quem com 15 anos em 2012 pergunta "Podemos trocar a ordem das perguntas?"
São, porém, consciências completamente diferentes. Quem tem hoje 15 anos e faz essa pergunta não vive no mesmo mundo de quem tinha 15 anos em 1986, logo, a consciência do mundo não pode ser a mesma porque o mundo está muito longe de ser o mesmo. Dentro da consciência de um jovem que há 26 anos me perguntava "Podemos trocar a ordem das perguntas?" havia uma mundividência, modos de vida, objectos, materiais ou simbólicos, que hoje já não existem. Hoje, por sua vez, há uma mundividência, modos de vida, objectos, materiais ou simbólicos, que em 1986 ainda não existiam. O mundo, tanto na sua totalidade como nos seus múltiplos e infinitos modos particulares, não é o mesmo.
Na consciência de um garoto de 15 anos em 1986, havia um país chamado União Soviética que era inimigo dos Estados Unidos. Na sua consciência não existia a Alemanha da sra Merkel mas uma Alemanha Federal e outra Democrática cujos atletas se fartavam de rapar medalhas nos Jogos Olímpicos, e cujo hino, que estava sempre a ouvir-se, já não existe. Na sua consciência, 11 de Setembro era uma não-data, um dia  entre o 10 e o dia 12, como é hoje para nós, sei lá, um 18 de Março ou um 12 de Novembro. A música que ouvia não era a mesma, assim como os filmes que via, as roupas que vestia, a ideia de escola, o seu modo de representar o presente e o futuro, a sua relação com a escola, etc, etc, etc, etc, etc. etc, etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc.
A frase é a mesma mas as consciências estão longe de serem as mesmas, ainda que sejam só 26 anos, no mesmo país, e pessoas que podem almoçar na mesma mesa, até porque as primeiras podem ser pais das segundas e as segundas serem filhos das primeiras.
O que se passa então na nossa consciência quando lemos uma frase como esta?

"Se imitarem, que imitem o que lhes convém desde a infância - coragem, sensatez, pureza, liberdade, e todas as qualidades dessa espécie" [Platão, A República, livro III]

Nós lemos esta frase e tudo isto faz sentido para nós. A infância, claro, mas também a coragem, a sensatez, a pureza e a liberdade. Tudo tão inteligível e cristalino como o teclado que tenho à frente dos olhos.  Mas o que se passará na consciência de uma pessoa que diz estas palavras há mais de 2000 anos? O que se passa na consciência de alguém que viveu há mais de 2000 anos, quando se refere à infância? Se a mundividência de pessoas que dizem uma mesma frase com uma diferença de apenas 26 anos, no mesmo país, com a mesma língua e que comem à mesma mesa, é completamente diferente, como será com pessoas que viveram num mundo que nada tem que ver com o nosso em quase tudo? Sensatez é sensatez, coragem é coragem, é para isso que servem os dicionários. Mas palavras não passam de palavras, conceitos não passam de conceitos, puras formas que exprimem exteriormente conteúdos e processos mentais que não são de natureza linguística e, neste caso, conteúdos e processos mentais de seres humanos cuja vida nada tem que ver com a nossa.
E não me refiro apenas à experiência de conteúdos abstractos como infância ou coragem. O que se passa na nossa consciência ao ler a seguinte frase?

" Não e não! Já não aguento mais apanhar com o fedor desta estrumeira nas trombas" [Aristófanes, A Paz]

Neste caso, a percepção de um simples cheiro. Mas o que pode significar um cheiro desagradável para um grego que viveu há mais de 2000 anos? Nós lemos esta frase de Aristófanes mas somos nós que estamos nela, já não o autor que a enunciou. Parece a mesma frase mas não é. A frase é a mesma mas o seu real significado a monante nada tem que ver com o seu real significado a jusante.
Dai que olhar para a história seja sempre um exercício projectivo. Estudamos a história, temos os dados diante dos olhos, seja uma guerra, uma viagem uma crise económica, uma carta, uma pauta musical, um casamento, um negócio ou um sistema social, e somos sempre nós que lá estamos, ainda que com a ilusão de estarmos a ver ou a ouvir os outros que viveram antes de nós. Estudar história é, por isso, como dormir num castelo assombrado por fantasmas que passam por nós sem lhes tocarmos. A história é, sem dúvida, uma das mais belas e nobres secções da literatura.