09 novembro, 2012

DIFERENÇA E REPETIÇÃO


   
Passei, uma vez mais, o My Fair Lady nas minhas aulas de Psicologia. Para quê? Para nada e estaria a mentir se fosse agora buscar objectivos pedagógicos de treta para justificar a exibição do filme na aula. Os alunos não precisam de ver o filme para perceberem o behaviorismo ou o mito de Pigmalião (o pretexto formal para o passar), coisas que se explicam em 10 minutos. Passei este ano, como passei no ano passado e irei passar no próximo. E com um motivo absolutamente fútil, o que é normal, sendo eu uma pessoa que gosta de futilidades: apenas para os alunos o verem. Pronto. E verem-no, tal como eu o vi, outros antes de mim também o viram, sendo bom que os seus filhos venham um dia a vê-lo.
A história é feita de progresso e de novidade. Há, portanto, coisas que eles irão ver e que eu jamais verei. Mas a história não pode ser apenas uma fuga para a frente, uma obsessão pela vertiginosa velocidade da mudança, um esquecimento do passado apenas porque é passado e o que é velho tem de ser substituído pelo novo.  Mais do que uma linha recta, a história precisa de ser um círculo e mais do que de velocidade a história precisa de lentidão.
Portanto, um lento círculo feito de rituais que se repetem e repetem ainda que os protagonistas se renovem em virtude da implacável lei da vida e da morte. Não acho nada que recordar seja viver. O que eu acho é que viver é também recordar. O que eu fiz na aula foi muito mais do que passar um filme. Foi enlaçar o tempo para com ele fazer um círculo no qual o passado e o futuro se condensam num eterno presente. Aquela história é eterna e aquelas canções deviam ser eternas, resistindo à erosão das canções que vêm e vão, tal como vêm e vão as gerações.