11 novembro, 2012

DEUS TENHA PIEDADE DE SI

        Annie Leibovitz | Diamanda Galas

Em entrevista à Visão, Jaime Nogueira Pinto fala de duas crises religiosas na sua vida. A primeira, por volta dos 13 anos, ao devorar livros de ficção científica. Porque, afirma, a ficção científica é um mundo onde Deus não está, nem sequer faz falta. A segunda, depois de ter lido Nietzsche, pela revolta deste contra Deus.
Eu sou ateu e nunca tive crises religiosas. Mas o meu fascínio pelo universo religioso e teológico continua a ser, apesar de hoje navegar em águas serenas, tão vívido como na minha subversiva juventude. E sei, até  por experiência pessoal, da necessidade de padres e intelectuais católicos em invocar e discutir figuras ligadas ao ateísmo como Nietzsche e Feuerbach. A explicação é simples: ateus e cristãos dependem tanto uns dos outros como dois amantes desavindos que não se conseguem separar. Podem discutir, divergir, exasperar-se até. Mas funcionam sob um mesmo paradigma mental, cultural e conceptual. São opostos, mas opostos em relação a uma realidade que lhes é comum e na qual, como diria Heraclito, não há subida sem descida ou descida sem subida.
Há cerca de dois anos li A Essência do Cristianismo, texto onde Feuerbach lança uma crítica feroz à teologia cristã. Porém, criticar o cristianismo, ainda que causticamente, continua a ser um modo de valorizar o cristianismo. Não por acaso, Marx desanca forte e feio em Feuerbach precisamente por continuar a  pensar num quadro conceptual que o autor de O Capital, queria ver definitivamente ultrapassado para se centrar nos verdadeiros problemas: económicos, sociais e políticos. De facto, escrever um livro sobre o cristianismo implica reconhecer a importância e centralidade da sua existência e dos seus problemas. Não deixa de ser interessante observar como a sua aparelhagem conceptual é marcada por um quadro mental cristão e teológico. Ora, o mesmo se passa com a famosa morte de Deus anunciada por Nietzsche, pois só se pode querer matar o que está vivo e ainda respira, sendo esse assassinato uma das suas grandes motivações, unindo mais uma vez presa e predador numa luta comum.
O medo de muitos intelectuais cristãos é precisamente o medo de um mundo fortemente tecnológico e científico onde Deus já nem sequer consegue ser uma sombra ou um fantasma assustador para um ser humano entregue a si mesmo e habitando um cosmos onde Deus foi esquecido. Pelo contrário, enquanto ateus e cristãos discutirem, continuaremos a viver no humano, suficientemente humano velho mundo de sempre. Sem isso, resta-nos apenas um mundo que, podendo continuar a ser humano, será de uma humanidade que se basta a si própria, seja para se salvar, seja para se condenar, limitando-se a substituir a imagem do crucificado por uma crucificação de si mesma.
Não faço ideia se será melhor ou pior. Diferente, será com certeza. Eu já cá não estarei para saber.