13 novembro, 2012

CRENÇAS DE CRISTAL



"Não concordo com os que consideram os nazis doentes ou loucos literalmente falando, e penso antes que são pessoas que se enganam perversamente quanto aos factos e os distorcem, quando acreditam, por exemplo, que certos seres humanos são sub-humanos, ou que a raça é o factor decisivo, ou que só as raças nórdicas são verdadeiramente criadoras, e assim por diante. Sou capaz de ver de que modo, por meio de uma dose suficiente de instrução falsa, de uma dose suficiente de ilusão e de erro, os homens podem, embora continuando a ser homens, acreditar em coisas semelhantes e cometer os crimes mais inqualificáveis". Isaiah Berlin, O Meu Itinerário Intelectual 


Lembrou-se, há dias, a sinistra Noite de Cristal (9 de Novembro de 1938), dia que simboliza o início do horror nazi. Pensando nesse horror, há quem possa ficar chocado por Isaiah Berlin (um judeu com vários familiares mortos em campos de concentração) considerar os nazis pessoas normais que apenas se enganam nas suas crenças e convicções. 
Porém, o que pode chocar neste texto é o facto de ser verdadeiro. O ser humano, exceptuando alguns casos patológicos, não é intrinsecamente mau ou perverso, ainda que pratique actos maus ou perversos. O mal não é uma disposição natural do ser humano. Se o fosse, seria impensável a sociedade tal como a conhecemos. Seja por disposição genética, hormonal ou neurológica, seja por interesse pessoal ou conveniência, há no ser humano uma predisposição para o bem, para a cooperação, para saber viver com os outros.
O que há no ser humano é uma disposição para a criação de ilusões ou falsas crenças, uma fundamentação "racional" dos nossos desejos e apetites que, desse modo, surgem sob uma capa de legitimitação. Por exemplo, para comermos um suculento bife de vaca ou um saboroso entrecosto no forno, tivemos que matar uma vaca ou um porco, seres vivos que têm a sensação de dor e de prazer e emoções. Nós somos boas pessoas, sensíveis, e não temos instintos diabólicos e perversos face a animais. Mas, acreditando que a vaca ou o porco têm uma natureza que legitima a sua morte para nós os podermos comer, matamo-los com a mesma naturalidade com que os homens cortam o cabelo ou as senhoras pintam as unhas. Do mesmo modo, os alemães que destruíram as montras e as sinagogas na noite do dia 9 de Novembro de 1938, acreditavam estar a destruir lojas e igrejas de gente inferior, desprezível, miserável cujo sofrimento não apresenta a mesma gravidade e dramatismo do sofrimento de pessoas normais. 
Poder-se-á dizer que a minha analogia não funciona porque não se pode comparar judeus, que são seres humanos, com animais. Só que eu não estou a querer discutir aqui o grau da crença, da ilusão, do erro. O que me interessa aqui é a sua natureza. Quando um garoto escreve num exercício de matemática que 8x7 são 62, errou, embora acredite que seja esse o resultado. Quando um militar, em vez de bombardear uma base inimiga como estava previsto, bombardeia uma aldeia de pobres agricultores, errou, acreditando, porém, que estava a fazer o que seria certo. Naturalmente que as consequências do erro nas duas situações, é incomparável. Mas um erro é um erro, uma ilusão é uma ilusão, uma crença é uma crença. E nós erramos muito, iludimo-nos muito, acreditamos em demasia. E há situações, infelizmente demasiadas, em que, por causa disso, resultam grandes dramas, seja nas nossas vidas pessoais, seja colectivamente. 
Podemos evitar isto? Não. Se pudéssemos, não seríamos humanos mas como Mr Spock. Admitamos, ainda assim, que seria vantajoso sermos um bocadinho mais desconfiados, seja quando nos sussurram ao ouvido, seja quando nos gritam com megafones.