02 novembro, 2012

COMEÇAR DE NOVO


Para o historiador, o interesse desta fotografia deve estar no seu valor documental: uma manifestação republicana em 1908, liderada por Afonso Costa, o verdadeiro centro espacial e simbólico da imagem. Neste caso, não para ver a alma do mundo montada a cavalo em Jena mas a alma de Portugal, apeada, numa pacata rua de Lisboa. O historiador olha, e vê uma manifestação cujo propósito é a mudança de regime. Mas eu não sou historiador e gosto mais de me perder por atalhos tantas vezes desprezados pelo olhar científico do historiador, mais preocupado com uma suposta racionalidade do processo histórico feita de causas que explicam efeitos.
Neste caso, é preciso desviarmo-nos do centro e dirigir o olhar para a rapariga do lado direito e para os homens do lado esquerdo que quase passam despercebidos face às épicas passadas dos heróis republicanos que querem mudar os ventos da história. Rapariga e homens que também desviam os seus olhares do centro, parecendo indiferentes à manifestação destes ilustres e voluntariosos protagonistas. Porquê? Porque estão mais preocupados com o fotógrafo que acabou de os congelar num eterno futuro onde, agora, em 2012, os apanho.
Graças aos passos firmes e decididos destes republicanos que caminham na nossa direcção movidos pelas suas crenças e desejos, a fotografia tem qualquer coisa de profético: permite antever a mudança de regime que não iria demorar. Parece assim que, olhando fixamente para o fotógrafo,  a rapariga e os homens do lado esquerdo estão a tentar olhar para o futuro, como se quisesem adivinhar as consequências daqueles ruidosos passos numa silenciosa rua de Lisboa. Os carris por onde caminham também ajudam à festa, dando à imagem um maior dinamismo: tanto provocam um efeito de velocidade como reforçam o efeito de profundidade que, sendo por natureza espacial, torna-se aqui temporal: estes homens vêm do passado mas aproximam-se cada vez mais de um futuro que já não lhes vai fugir.
Infelizmente, ali ninguém vê nada do futuro pois o futuro a Deus pertence. Mas nós, nós, que tanto podemos ver esta fotografia como Velasquez via as Meninas enquanto as pintava, como sermos o espectador que vê as Meninas no lugar do pintor já depois de as ter pintado, somos uns sortudos. Estamos no futuro para onde eles estão a tentar olhar e sabemos tudo, tudinho o que vem a seguir. Ou seja, não fazemos de Deus, mas conseguimos pensar o pensamento de Deus antes de as coisas existirem.
Muito sinceramente, a vontade que me dá, sendo eu já um moderno filho da imagem em movimento, seria mesmo fazer de Deus. Fazer de Deus  para poder pegar num comando e parar aquele movimento como um garoto pára os desenhos animados para ir lanchar. Não, obviamente, para parar a história pois a história não é coisa que se pare. Apenas para, o que seria deveras simpático, recomeçar tudo outra vez.