13 outubro, 2012

VIDA INCÓMODA


Não consigo esquecer a amarga ironia que há nesta notícia. A sua ironia mas também a sua beleza quase literária a fazer-me lembrar Wakefield, a personagem que dá nome a um dos meus contos preferidos de Hawthorne. Quem é Wakefield? Um pacato londrino que informa a mulher de que se irá ausentar uns dias por razões profissionais. Vai, mas não volta. Desaparece. E vai para onde? Viver vários anos numa rua a seguir à sua, a partir da qual passa a observar a mulher sem ser visto por ela. Depois desses anos, regressa a casa, com o mesmo sorriso com que a tinha deixado anos antes.
Wakefield era um homem sem “instintos conjugais” e com uma enorme “acalmia afectiva”. “Era o mais constante dos maridos, em razão de uma espécie de indolência que o poupava a oscilações de humor”. “Mantinha a cabeça ocupada com divagações indolentes”. “Os pensamentos que tinha só raramente encontravam vigor para se fazerem palavras, e redundavam, inevitavelmente, em nada”. “Imaginação, no sentido próprio do termo, era coisa que Wakefield não tinha.” “O homem mais capaz de fazer coisas de que ninguém se lembrasse”.
Em suma, Wakefield é a invisibilidade. E que vai viver para uma rua a seguir à sua para se tornar ainda mais invisível. Um bom funcionário cumpridor e responsável. Um bom cidadão. Um marido respeitador da mulher. Mas um homem que nunca terá tido um pensamento luminoso, que nunca terá escrito um poema na vida, pintado um quadro, tocado piano, guitarra ou realejo, cometido um qualquer disparate que fizesse rir os outros ou a quem tivesse ocorrido uma qualquer ousadia erótica. Wakefield existe, mas atravessa a vida como uma fantasma, tanto na rua como em casa.
Esta tão romântica imaginação pode parecer muito longe da notícia lá de cima. Mas não creio. Se não é avassaladoramente romântica a ideia de um casal que decide viajar durante 5 anos e que morre atropelado no momento em que chega a casa, então não sei o que é romântico. Agora, que relação existirá entre a história de Wakefield e a história deste casal suíço? Sair de casa. Neste caso, não apenas o marido mas os dois.
Porquê esta necessidade de sair de casa durante 5 anos? Será porque são suíços e, como insinuou Orson Welles, a coisa mais emocionante que a Suíça criou foi o relógio de cuco? Não, não é por serem suíços, mas porque se trata de um padrão. Claro que não estou obviamente a pensar em pessoas que gostem genuinamente de viajar e que tanto estão bem dentro como fora de casa. Até podia ser o caso deste casal suíço. Mas esta história não deixa de ser a história de milhares de casais que precisam de sair de casa para não se verem. Não para conquistarem uma desejada invisibilidade mas para poderem disfarçar ou iludir uma indesejada invisibilidade. Pessoas há que saem, que viajam, como outras fazem tudo para chegar mais tarde do trabalho a casa. Pessoas que trabalham como se viajassem, para poderem não ver a sua invisibilidade mal chegam a casa. Chegar a casa não as torna invisíveis. Chegar a casa obriga-as simplesmente a verem a sua própria invisibilidade.
«Nós somos contra a vida cómoda» dizia o duce. Esta frase, tão febrilmente marinettiana, empurra-nos para a frente, para fora de nós próprios, expulsa-nos da quietude da rotina. Andar, andar, andar, nunca parar. Parar é para as pedras. Sair, sim, e sair velozmente sempre em busca do que nunca se viu ou ouviu.
Quem tem medo da vida cómoda? Quem prefere a velocidade à lentidão, o estar fora ao estar dentro, a dinâmica da viagem à passividade do encontro consigo próprio. Os casais felizes não precisam de sair de casa. Para muitos será mesmo um incómodo. O que pode ter perdido aquele casal suíço ao ter morrido atropelado à porta de casa depois de 5 anos a viajar? Muito provavelmente, apenas outros 5 anos de viagem.