04 outubro, 2012

URSO POLAR

                                                            André Kertesz | Auto-retrato com máscaras

Ouvi uma vez a cientista Maria de Sousa, grande amiga de Miguéis, dizer num documentário que ele viveu a terrível angústia de envelhecer, mantendo um espírito jovem. A terrível angústia de estar num corpo septuagenário, com um espírito que ficou preso na juventude.
É por isso que é bom aprendermos a envelhecer mentalmente. Há quem diga que é preferível manter um espírito jovem toda a vida. Que é bom ser velho mas manter um espírito jovem. Não concordo. Penso que é bom olhar para o corpo e sentir que aquele é o meu corpo e não o corpo de um outro que sou obrigado a suportar. E isso só acontece se o meu espírito for igual ao meu corpo.
Dizia Platão, no Fédon, que as almas foram feitas para o supra-sensível e os corpos para o sensível. Queria ele dizer que uma alma está num corpo como um colibri no Polo Norte. Era assim que se devia sentir José Rodrigues Miguéis no seu corpo de velho: um alegre, jovial e primaveril colibri na gelada e asfixiante brancura do Polo Norte. Eu prefiro morrer como um urso.