14 outubro, 2012

SENTIDO ÚNICO

                                                                       Michael Kenna

Há dias, numa aula, apresentei o sentido da vida como exemplo de uma questão filosófica. A minha ideia não era discutir o problema mas apenas explicar a diferença entre uma questão filosófica e uma questão científica. Os alunos, porém, aproveitaram logo para levantar os dedos e dar opinião. 
Um deles, entusiasmado, disse que vida não tem sentido uma vez que iremos todos um dia morrer. Ora, como a minha obrigação é contrariar os alunos, mesmo nas situações em que concordo com eles mas finjo não concordar, respondi que, a ser assim, também não faria sentido ir a um concerto, ver um filme ou comer um chocolate, pois irão também necessariamente chegar ao fim. 10 singelos segundos bastaram para o xeque-mate, fazendo o inocente engolir em seco.
Mas, depois, com a aula já acabada e a caminho do bar para comer um pastel de nata enquanto penso nos dias que faltam para as férias, não pude deixar de sentir alguma culpa pela minha desonestidade filosófica. Deveria ter-lhe dito que também é verdade que há filmes durante os quais adormecemos, concertos com péssimas condições acústicas, e que um chocolate também pode provocar uma enorme dor de barriga.
Mas creio que fiz bem em não lhe dizer. O rapaz, com 15 anos apenas, tem toda a vida à sua frente para o descobrir.