07 outubro, 2012

O TÚNEL

                                          Duane Michals | The Dream of Flowers

Revi há dias Os Amigos de Alex. Não é propriamente no filme que agora quero pensar mas na minha percepção através do tempo de um filme onde o tempo é o actor principal.
Rapaz novo quando vi o filme pela primeira vez, ainda estava muito longe de poder ser um amigo de Alex. Aquelas personagens eram o meu futuro. Agora, tendo-o visto pela segunda vez, e bem mais velho do que as personagens, já passei a fase de ter sido um amigo de Alex. Aquelas personagens já fazem parte do meu passado. Pelo meio não sei muito bem o que aconteceu. Sou agora a mesma pessoa que viu este filme há muitos anos mas com uma percepção invertida. É como atravessar um túnel escuro. Tinha uma consciência clara de mim no momento em que começo a atravessá-lo. Tenho uma consciência clara de mim depois de o ter atravessado. Mas sem uma consciência clara durante a travessia.
O presente parece o que há de mais sólido no tempo mas não passa apenas de um vir a ser ou de um ter sido. E só temos bem a consciência das coisas antes de o serem, quando pensamos no que virá, ou depois de terem sido, pensando no que foi. O presente é tão gasoso e evanescente quanto o futuro, o que ainda não existe, ou o passado, o que já existiu. Simplesmente temos a ilusão de o tocar porque está mesmo à nossa frente. Mas não passa mesmo de uma ilusão, tal como temos a ilusão de estar a ver um quadro se tivermos os olhos mesmo em cima dele. Podemos ver cores e algumas formas mas não vemos propriamente o quadro. A mesma ilusão de quando atravessamos o túnel. Vemos luz mas a luz que vemos é apenas a das duas extremidades. Durante a travessia, apenas há escuridão e andar às apalpadelas. A própria consciência clara que julgava ter no momento da partida e no momento da chegada, não passa de uma ilusão. O presente é sempre uma projecção nosso num futuro que ainda não aconteceu ou uma recordação de um passado que já aconteceu. A luz do presente é sempre uma luz indirecta e distante. Daí uns caírem, outros não conseguirem avançar ainda que às apalpadelas, haver uns que tropeçam em outros para caírem ao mesmo tempo. Outros há, felizmente, que conseguem atravessar bem o túnel, graças a alguma sorte e aproveitando a pouca luz de que dispõem. São as pessoas felizes. Mesmo assim, apenas até o túnel chegar definitivamente ao fim e já não haver mais qualquer luz para o iluminar.