29 outubro, 2012

O TEAR DE PENÉLOPE


                                            Henry James e o irmão William, Lamb House, Setembro de 1900

Num mundo tão tecnológico como o nosso, o acto solitário de escrever é um privilégio, dizia há uns anos Ian McEwan numa entrevista. E comparava esse privilégio ao de Ulisses e Penélope, cujos sentimentos resistiram à imediatez do tempo e das contingências associadas às suas vidas. Lembro-me de na altura ter achado a analogia um pouco forçada. Porém, um debate intitulado "Amor de Perdição na perspectiva dos amores juvenis de hoje", realizado há dias em Lisboa, levou-me a pensar de novo nas palavras do escritor inglês.
Comparando as cartas escritas por Simão Botelho ou Mariana com os sms escritos actualmente pelos jovens, dizia o psiquiatra Daniel Sampaio que apenas o contexto mudou, não a essência das relações afectivas, dos sentimentos e das emoções. Eu percebo o que ele quer dizer e até ajudo um pouco à festa. Uma lagartixa assustada com o movimento de uma pedra, não se distingue de um ser humano que se assusta com o barulho de um petardo. O medo é uma emoção básica igualmente partilhada por animais e pessoas. E partilhda pelas pessoas independentemente da sua personalidade, inteligência, época histórica e geografia. E quem diz o medo, diz o nojo, a alegria ou a tristeza. Sim, a alegria de um cão que abana o rabo e salta quando vê o dono chega a casa não é muito diferente da alegria de uma pessoa que encontra alguém de quem gosta muito e não vê há bastante tempo. Mas uma coisa são emoções básicas, outra são sentimentos, e o modo como esses sentimentos são vividos, tanto no centro como nos sítios mais recônditos da nossa consciência.
Daí eu ter algumas dúvidas sobre a possível semelhança entre uma carta de Mariana no século XIX e um sms da Ana Filipa no século XXI. E quem diz sms, diz a comunicação em tempo real do Twitter, do chat ou os estados de alma do Facebook, quando as pessoas, desde a Cláudia de 15 anos, à mãe e ao pai da Cláudia que têm 40 ou 50, correm para o computador depois de jantar.
Porque se trata de uma comunicação que remete a pessoa para uma situação de pura exterioridade e superficialidade. O que comunica um jovem que envia e recebe mais de 500 mensagens por dia? Nada, a não ser fugazes relâmpagos, luzes interiores que se apagam mal acendem. Um jovem que envia mais de 500 mensagens por dia pode ter emoções de alegria e de tristeza, pode estar apaixonado, sofrer ou ter uma sensação de plenitude, mas tem uma vida interior engasgada e que se vai cada vez mais descentrando numa camada exterior que, pela sua superficialidade dromológica, se perde ainda antes de o ser. Os sentimentos e pensamentos não passam assim de soluços que denunciam uma ausência de digestão.
Um mundo sem solidão, o mundo da comunicação radical e compulsiva, é um pesadelo, uma espécie de panóptico psicológico que reduz o espírito a uma fantasmagórica transparência sem qualquer densidade. A Mariana de Camilo desesperaria, alucinada, neste mundo, sem saber o que sentir ou pensar. A Cláudia morreria de tédio no mundo de Mariana, sem saber o que sentir ou pensar. Há situações em que a falta de tempo e o excesso de tempo podem ter consequências iguais. As razões serão, todavia, completamente diferentes. Mariana e Cláudia são raparigas diferentes de tempos diferentes. Uma escrevia os seus textos com o mesmo tear com que Penélope tecia enquanto esperava por Ulisses. A segunda não escreve textos nem sabe o que é pensar silenciosamente perante um tear, perante a impaciência de sequiosos pretendentes que não sabem esperar e falam ruidosamente entre si.