24 outubro, 2012

O MAGO DE VILAR DE ANDORINHO














                                                                   Fernandino Scianna

1. Ontem, em Manchester, o Braga marcou golo no segundo minuto do jogo. O comentador, infantilmente excitado, atirou logo um foguete para o ar, afirmando que é sempre bom começar o jogo a ganhar. A sua estupidez não está em dizer o óbvio. Qualquer coisa de tão evidente e supérfluo como dizer que é mau começar um jogo a perder. Não é isso.
A questão é mesmo esta: por que raio é bom começar um jogo a ganhar? Eu ouvi isto e achei logo uma estupidez. E mais estúpido achei ao comparar a sua frase com o ar impassível do treinador-adjunto do Braga no momento do golo. Admiro esta serenidade filosófica dos treinadores no momento em que a sua equipa marca um golo, neste caso ainda para mais prematuro, sabendo que marcar aquele golo no início nada significa quando há 88 minutos pela frente. Os jornalistas, esses, com a sua histeria habitual, são como os bicéfalos de que fala Parménides, tontinhos de duas cabeças que ficam sem saber para onde olhar. Olham rapidamente para a direita e para a esquerda, pensando que vêem tudo, apanham tudo, quando afinal não vêem nada. Os seus pensamentos são como foguetes que rapidamente levantam voo, irradiam uma luz vaga e fugaz para depois chegarem rapidamente ao solo onde irão ficar esquecidos.
Quando cheguei a Lisboa para estudar Filosofia, o meu primeiro trabalho foi sobre uma frase do prefácio da Fenomenologia do Espírito: "O Verdadeiro é o todo". Hegel sabia-a toda. A frase, porém, não passa de uma antecipação filosófica do clássico de João Pinto, na década de 80 do século passado, quando, com aquela profundidade de quem contempla o elegante voo da Ave de Minerva no crepúsculo, afirmou que prognósticos só no fim. No futebol, como na vida, na história, em tudo, os jogos ganham-se ou perdem-se no fim. Nunca no segundo minuto. O segundo minuto é apenas aquele que vem antes do terceiro, e no segundo jamais  saberemos o que possa vir a ser o terceiro.
Há equipas que perdem o jogo no último minuto dos descontos. Muito, mas muito até para além do terceiro minuto. O que é bom não é começar o jogo a ganhar. Bom é acabar o jogo a ganhar. E o apito final, ecoando no ar no crepúsculo do jogo, é o único que nos pode dar a verdadeira sabedoria de um jogo que nunca sabemos como irá terminar.

2. Quando o jogo chegou aos 35 minutos da 1ªparte e o Braga ganhava por 2-1, o cientista do esférico que ia analisando e dissecando o jogo como quem disseca uma rã, afirmou, no alto da sua douta sabedoria futebolística, que aqueles 10 minutos até ao intervalo iriam ser o período mais importante do jogo. Explicou (eles explicam tudo) que se o Braga conseguisse chegar ao intervalo a ganhar, isso iria condicionar positivamente o que iria acontecer depois do intervalo. Na sua estúpida, vazia e ingénua racionalidade, o analista acreditou que um jogo de futebol é feito de compartimentos temporais, cada um deles com a sua identidade, a sua lógica, a sua intrínseca racionalidade. A sua cegueira científica levou-o a acreditar que os últimos 10 minutos da 1ªparte não são a mesma coisa do que os primeiros 10 minutos da  2ªparte ou os terceiros 10 minutos da 2ªparte. A acreditar que os atómicos minutos de um jogo são como as fatias de um bolo cortadas simetricamente e de acordo com certos princípios de ordem e harmonia como o Cosmos platónico ou renascentista. Como está tão obcecado em ser inteligente, profundo, racional, acredita estupidamente que o facto de o Braga poder chegar ao intervalo a ganhar teria alguma relevância. Como se o que acontece agora, antes ou depois tivesse alguma relevância só porque é agora, antes ou depois.
O Braga chegou ao intervalo a ganhar como tanto desejava o sábio. Acabou o jogo a perder 3-2. E perdeu 3-2 como poderia ter ganho 3-0 ou empatado 2-2. E, no fim do jogo, explicar uma vitória por 3-0 é tão fácil como explicar uma derrota por 3-2. As contas fazem-se sempre no fim. João Domingos da Silva Pinto, nascido em Vilar de Andorinho, nunca deve ter ouvido falar da Ave de Minerva. Mas a lucidez e transparência tautológica do seu pensamento vale mais do que toda a profundíssima estupidez do pensamento científico do jornalismo desportivo português.