19 outubro, 2012

MOLHERES

                                                                        Camille Vivier          

Uma aluna minha de 11ºano escreveu várias vezes num texto a palavra "molheres". Como professor, cidadão engagé ou simplesmente português orgulhoso da sua pátria, deveria ter ficado chocado. Mas não fiquei. Pelo contrário, vi nisto a revelação de um lírico neologismo, assim tipo Mia Couto. Descubro em "Molheres" a mistura poética de molhos e mulher, a tradução linguística da essência vegetal da mulher e do eterno feminino. Molhos de mulheres, como molhos de flores, uma coisa assim tipo Herberto Helder, tipo Ramos Rosa, tipo Eugénio de Andrade, tipo Maria Teresa Horta, assim tipo filme húngaro, tipo Salmo Vermelho, tipo fotografia da Marina Abramovic, tipo mas mesmo tipo tipo Tonicha da Menina, da menina cheirando a feno casada com hortelã, menina do riso aos molhos, minha seiva de pinheiro, menina de saia aos folhos, alfazema de corpo inteiro.
Dizia Wittgenstein no Tratactus Logico-Philosophicus (1921), que os limites da sua linguagem denotavam os limites do seu mundo. Isso era em Cambridge e há muito tempo. Em Portugal, em 2012, a linguagem não tem limites, permitindo assim que o mundo esteja sempre a ser tipo redescoberto e tipo reinventado, sendo assim infinitas as suas possibilidades.