18 outubro, 2012

IDADE PARA AS TREVAS

                                                                         Misha Maslennikov

Ontem, na sala de professores, salvo seja, começo a sentir a cabeça a estalar, uma mistura de vertigem, esmagamento, opacidade, os ouvidos a rebentar, como se fosse o Inquilino de Polanski. Olho à minha volta para tentar perceber e obtenho a resposta: descubro-me insignificante e perdido ilhéu rodeado de mulheres por todos os lados, tragicamente submergido por violentas e estridentes ondas metálicas movimentadas pelas profundezas de impiedosas gargantas.
Como Diógenes com a sua lanterna, procuro um homem, um simples homem, mas não o encontro. A contabilidade mostrou-se implacável: 24 professoras e nenhum professor, salvo seja, porque estava lá eu.  Espero por um homem, um simples homem, mas acabo por ir dar mais uma aula e o homem não apareceu. Saio para dar a aula mas um impenitente eco continua indelevelmente cravado nos meus ouvidos.
E, de repente, veio ao de cima toda a minha pulsão pré-rafaelita. Nem estou sequer a pensar em silenciosas musas que povoam a terra com a discrição de uma fresca e suave brisa cuja existência, mais do que se sente, se pressente. Fui, sim, povoado pela nostalgia de uma Idade Média em que se ensinava e aprendia entre as silenciosas paredes de um mosteiro. E sim, eu sei. Quanto mais nostalgia pela Idade Média, mais é certo de que já estamos bem dentro da Média Idade. Média Idade em que finalmente se vislumbra a feliz possibilidade de vir a usar um aparelho. Já não é de uma lanterna que preciso. A minha esperança está num aparelho que se liga ou desliga, permitindo-me viajar até à Idade Média sempre que quiser para poder ficar rodeado de trevas e de silêncio.