30 outubro, 2012

ÉTICA PARA UM VELHO

  André Kertész

A noite passada acordei às três e meia. Bem desperto, como se fossem três e meia da tarde. Podia ter ligado o computador para ler jornais e outros fluxos mundanos. Em vez disso, deu-me para ir à sala buscar a Ética de Espinosa. Foi mesmo uma coisa que me deu, e sem saber muito bem porquê. Ou melhor, saber sabia. Sabia, com aquele tipo de saber que está lá sem estarmos a olhar para ele. Hoje, porém, percebi ainda melhor ao ter sido martirizado todo o dia na  minha escola com a campanha eleitoral para a associação de estudantes.
Percebi muito melhor como o mundo é demasiado ruidoso para os meus ouvidos e como o excesso de luz mundana me faz mal aos olhos. Ruídos de todos tipos, luz de todos os tipos. Ler a Ética de Espinosa, para além de proteger o silêncio da noite, é uma forma bem mais sossegada de entender as coisas mundanas sem ser contaminado por elas. É como estar tranquilamente em casa a polir lentes, a assistir a combates de aranhas ou à luta de uma mosca com a teia de aranha, actividades às quais o filósofo com nome de aranha se dedicava no recato do lar.
Ontem, soube sem saber, que acordar às três e meia da manhã para me pôr a ler jornais seria entrar no ruidoso e acelerado ritmo do mundo, andando nele aos tropeções. Para isso já me basta a infernal campanha eleitoral no meu local de trabalho na qual fui obrigado a tropeçar ao longo do dia.