12 outubro, 2012

EM LOUVOR DA LENTIDÃO

                                                                     Paul Nougé

Creio que é o Milan Kundera, em A Imortalidade, que fala do barulho que um tipo faz com o tubo de escape da sua mota, como sendo o barulho do seu próprio eu, como se o tubo de escape fosse uma extensão do seu espírito, exposto assim deste modo perante os outros.
Lembrei-me dessa divertida análise mal acabei de ler esta notícia, que me fez logo ficar com vontade de regressar ao século XVII. A Espinosa, para melhor compreender a relação de forças entre as pessoas, o modo como as suas vidas colidem, se desintegram, se separam, em virtude de paixões da alma que podemos compreender como o geómetra  pensa nas linhas, superfícies ou volumes. Mas sobretudo a Hobbes e à sua teoria da conservação do movimento, segundo a qual um corpo em movimento move-se eternamente, a menos que algo o impeça.
Se cada ser humano vivesse isolado na sua própria ilha, esqueceríamos já o assunto. O problema é que os seres humanos vivem todos na mesma ilha. Como pinguins numa praia da Antártida, vivemos uns com os outros. Uns e outros, todos seres humanos, mas com fortes diferenças na relação de cada um com o seu próprio movimento.
Há carros que podem ser velozes mas cuja velocidade é refreada pelo condutor. Outros carros, porém, não foram feitos para andar devagar. São carros que detestam passar despercebidos, o silêncio da garagem, a lentidão, a tranquilidade de um passeio ou a simples e meramente funcional ligação entre dois lugares tornada possível através do movimento de um automóvel.
Também são assim as pessoas. Que detestam o mesmo que esses carros. Pessoas que, graças a uma coincidência espacial e temporal, entram em rota de colisão com outras que gostam do que elas detestam. Daí que, como numa corrida, marcada por uma correlação de forças entre diferentes automóveis, também o tipo de movimento de um ser humano dependa também da força que lhe está subjacente. E isto tanto acontece na política, na economia, na sociedade, no amor ou no sexo. Daí haver presas e predadores. Presas e predadores sociais, políticos, económicos, amorosos ou sexuais. Muitos seres humanos nem sequer pensam em competir. Mas acabam muitas vezes por serem atropelados por quem não consegue ou quer parar, cujo movimento é forte e contínuo.
As leis, tal como o código da estrada, ajudam a regular o movimento, a equilibrar a correlação de forças, a abafar o peso esmagador de certos corpos e almas sobre outros corpos e almas. Mas, do mesmo modo que o código da estrada não evita a força sem freio, a displicência, a febril excitação da velocidade, também as leis não são suficientes para evitar um mundo de presas e de predadores. 
Aquele Porsche é o político que corrompe, o empresário que explora, o economista que reduz as pessoas a uma massa numérica, o amante que anula o outro amante, o violador que precisa da vítima para se saciar. O Porsche pode ser belo, excitante, deslumbrante, caro ou poderoso. E o ser humano não sabe, nunca soube, nem nunca saberá viver sem a beleza, a excitação, o deslumbramento, a riqueza e o poder. Só que o preço a pagar por isso é, muitas vezes, demasiado elevado. Tão elevado que muitas vezes a absoluta excitação de uns cujo movimento não é travado, representa a absoluta ausência de excitação de outros cujo movimento é completamente travado. O movimento faz parte da natureza humana assim como da natureza em geral. Graças à lentidão, porém, haveria, para todos, mais tempo para tudo.