08 outubro, 2012

CÁLICLES

                                                                   
                                                                    Luis Márquez | Nu (1930)

Por causa da noção de justiça, vamos dar com uma tremenda picardia entre Cálices e Sócrates, num texto de Platão chamado Górgias.
Cálicles defende que na sociedade deve imperar a lei do mais forte. Se a natureza permite ao poderoso leão comer a vulnerável gazela, por que razão não será também assim entre as pessoas? Defende assim uma legitimidade natural no modo como os mais fortes, inteligentes e perspicazes subjugam os mais fracos. Sócrates reage com uma indignação pouco habitual, defendendo que as relações sociais e económicas devem ser marcadas pelo equilíbrio, a proporção e a igualdade. No fundo trata-se de fazer sobrepor, na sociedade, moral ou economia, a elegância formal da matemática ao caótico e disruptivo poder dos instintos e forças cegas que estão na origem de desequilíbrios sociais.
Se transferíssemos este diálogo para a actualidade, quem seriam os Cálicles do nosso mundo? Como o Orlando de Virginia Woolf, Cálicles é uma personagem imortal que atravessa toda a história, aparecendo  travestido aqui e acolá. Pensando com Hobbes, diria mesmo que grande parte da filosofia política consistirá em saber o que fazer com os Cálicles deste mundo, que que tanto podem assumir as suas vorazes garras, como Hitler ou Estaline, como disfarçá-las com veludo. Há uma violência e uma agressividade explícita nos discursos e actos de muitos mas também há violência e agressividade escondida em muitas palavras e gestos de sedução. Em democracia, habitualmente é assim. E enquanto for assim, a filosofia política deverá continuar a querer responder às suas perguntas mais importantes: quem manda, e por que manda? Quais os limites de quem manda? A questão não tem que ver com o poder que se tem, mas com os limites do poder que se tem. Como tudo o que é clássico, e tal como Orlando, uma questão que resiste ao passar dos séculos.