01 outubro, 2012

BRIGHTON ROCK É BRIGHTON ROCK É BRIGHTON ROCK

                                                                         Eva Besnyö

Vi há dias um filme chamado Brighton Rock baseado num romance chamado Brighton Rock.
Uma hora depois, pegando no livro de Graham Green, começo a aperceber-me de que alguns dos elementos mais importantes do filme, senão o mais importante, não existem no livro. Concluo então que existe uma clara divergência factual entre o filme Brighton Rock e o livro Brighton Rock, bem diferente das naturais divergências ontológicas que existirão sempre entre um livro e um filme.
De início, senti-me desiludido. Pior: traído. A sensação de não ter visto o filme que seria suposto e até necessário ver, mas uma outra coisa, nascida da livre imaginação de um argumentista pouco escrupuloso. Porém, reflectindo melhor, o meu entendimento do desvario passou a ser diferente.
Tomando como ponto de partida o núcleo central do romance, e o núcleo central do filme é igual ao do romance, a sequência narrativa do filme é tão verosímil quanto a sequência narrativa do livro. Direi mesmo que, partindo sempre de um mesmo núcleo, qualquer sequência narrativa, da mais previsível à mais bizarra, será sempre verosímil.
Imaginemos que Graham Green, no momento em que se senta na secretária para começar a escrever o livro, acaba por vir a escrevê-lo com os elementos narrativos que saíram livremente da cabeça do argumentista do filme, os tais que me provocaram os sentimentos de desilusão e de traição por se afastarem do romance. E que o argumentista do filme, afastando-se desse hipotético romance, por acaso até tinha escrito o seu argumento com os elementos narrativos que Graham Green verdadeiramente escreveu no texto original e que podemos verdadeiramente ler, e dos quais o argumentista do filme verdadeiramente fugiu. Eu iria sentir o mesmo: desilusão e traição. O que não deixa de ser engraçado pois a desilusão seria por não estar a ver no filme o que agora me provoca desilusão precisamente por estar a ver.
Porém, esta desilusão e sentimento de traição não deixa de ser bastante pedagógica pois obriga-me, partindo do mesmo núcleo central, a fazer um exercício de possibilidades. Não estamos habituados a fazê-lo mas ao mesmo tempo será bom fazê-lo, ajudando-nos a perceber que qualquer ponto da realidade tal como objectiva e factualmente o conhecemos, não passa apenas de um ponto da realidade tão real e verosímil como qualquer outro que nunca tenha chegado a existir.
Nós jogamos muito facilmente com a noção de possibilidade quando projectamos o futuro, mas temos muita dificuldade em fazê-lo ao reflectirmos sobre o que já aconteceu. Porquê? Porque tendemos a olhar para o passado como um processo inflexível, uma cristalização de factos na sequência de um encadeamento necessário. Uma coisa à qual a nossa memória se habituou e que já não conseguimos pensar de outra maneira. Olhar para o futuro é olhar para um gasoso vazio onde tudo pode vir a acontecer. Olhar para o passado é olhar para uma rocha cuja solidez não pode ser alterada. Uma rocha a cuja forma e estrutura nos habituámos, acabando por perder a liberdade que tínhamos de pensar sobre ela  antes de se formar. Antes de uma coisa acontecer pensamos que muita coisa pode vir a acontecer. Quando as coisas aconteceram já só conseguimos pensar no que aconteceu.
E isto, tanto na vida pessoal como na história. Em A Conspiração contra a América, Philip Roth imagina Roosevelt a perder as eleições de 1940 para um pró-nazi que se torna aliado da Alemanha. A partir desta vitória, os judeus americanos passam a ser vítimas de perseguição e discriminação tal como acontecera na Europa dos anos 30. Inverosímil? Só na aparência. O que fez Roth em relação à história do século XX foi precisamente o que fez o argumentista de Brighton Rock em relação ao livro. Partindo de um núcleo real limitou-se a fazer o que faz um ferroviário quando com a agulha muda a direcção de um comboio. Um simples gesto mas que muda toda uma direcção. Foi normal o nazismo ter emergido nos anos 30 na Alemanha? Claro que foi. Foi normal o nazismo não ter emergido nos EUA nos anos 30? Claro que foi. Tão normal como não ter havido nazismo na Alemanha e ter havido nos EUA. Antes de tudo ter acontecido tudo pode acontecer.
Temos dificuldade em gerir o pequeno gesto do ferroviário. Habituamo-nos a ver a vida como um romance cujas letras estão gravadas num céu imutável, impressas por um escritor omnisciente. Mas não é assim. A vida é mais um filme que vai sendo improvisado por um realizador que trabalha condicionado pelos meios técnicos e humanos que tem ao seu dispor.
Será isto um drama? Não, há muitos filmes com finais felizes. Mesmo que nos romances nos quais se inspiram, e de cujo núcleo central partem, não estivesse para ser assim.