23 outubro, 2012

15 VOLTS

                                                              David Lean | Blythe Spirit [fotograma]

Em 1963, Stanley Milgram, psicólogo da Universidade de Yale, realiza uma célebre experiência que ainda hoje é uma referência no estudo dos mecanismos da agressividade e da "banalização do mal". 
Milgram dividiu, aleatoriamente, em dois grupos, pessoas que aceitaram participar numa suposta experiência sobre a memória. Uns, seriam os "alunos" cuja memória iria ser ser testada através de uma bateria de perguntas, outros, os "professores", castigariam o aluno com um choque eléctrico sempre que este falhasse a resposta, podendo aumentar progressivamente a voltagem. "Aluno" e "professor" estavam em salas diferentes, comunicando através de um microfone. Os choques eléctricos eram fictícios. Porém, sendo o "aluno" previamente instruído para fingir dor e gritar sempre que "apanhava um choque", levava o professor a acreditar que lhe estaria a infligir dor. 
Ao longo da experiência, dois terços dos "professores" foram aumentando o volume das descargas até ao fim, tendo a perfeita consciência das dores horríveis que estavam a provocar nos alunos apenas porque estes falhavam as suas respostas. Os alunos gritavam, exprimiam sofrimento mas os "professores", ainda assim, continuavam a aumentar a voltagem. Porquê? Simplesmente para obedecerem às ordens de quem os estava a dirigir. Sabiam que estavam a fazer sofrer mas a necessidade de  obedecer a um superior era mais forte do que a sua consciência, a culpa, a compaixão perante o sofrimento do outro.
Philip Zimbardo, especialista da psicologia do mal, esteve há pouco tempo no nosso país. Ele e Milgram, ambos oriundos do Bronx, foram colegas de turma no liceu e já nesse tempo falavam sobre essas questões. Disse ele em entrevista ao Público, que Milgram se interrogava se o Holocausto poderia ter acontecido na América. Os americanos diziam que não, que isso era um assunto claramente alemão. Mas Milgram acreditava que se tivessem feito essa pergunta aos alemães antes da chegada de Hitler ao poder, também não acreditariam que o seu povo pudesse cometer tamanha atrocidade.
Há, na entrevista de Philip Zimbardo, uma frase que me ficou debaixo de olho. É quando ele diz que o Mal começa nos 15 volts. Na verdade, quando pensamos no Mal, pensamos de imediato nas guerras, torturas, violações, homicídios, cenários macabros que põem os nossos estômagos a andar à roda. Isso, porém, é o lado mais espectacular, digamos que o mais barroco do Mal. O Mal, o verdadeiro Mal, como um gás invisível  e inodoro, começa num grãozinho da areia, num simples baguinho de arroz, quer dizer, na filha da putice do dia a dia, nas sacanices no local de trabalho, na política, nas vidas pessoais, nas amizades, no modo como os seres humanos, com o seu ar de inofensivos insectos, são capazes de prejudicar e fazer sofrer os outros, sem sentimento de culpa e compaixão. Muitas vezes, a diferença entre um carrasco que fica para a história e um filho da puta que toma café na mesa ao lado da nossa, é apenas uma questão de oportunidade.
Ainda há dias, numa aula de Psicologia, expliquei que a finíssima película que separa a barbárie da civilização ou, numa versão mais doméstica, a imoralidade da moralidade, está no sentimento de culpa e de compaixão perante o outro. Diz Zimbardo, e bem, que o Mal começa nos 15 volts. Também é nos 15 volts que acaba o sentimento de culpa e de compaixão. Sim, demasiado depressa.