10 setembro, 2012

RAQUEL DO OUTRO LADO DO ESPELHO

                                                                        Marín | Raquel Meller


Raquel sabe que o espelho é a prova diária da sua existência artística e da sua beleza. Como se o olhar devolvido magicamente por aquele espelho fosse o olhar de um amante que a contempla e lhe explique por que razão é desejada e aplaudida por quem a vê e ouve.
Porém, neste momento, Raquel desvia o olhar do espelho para se concentrar no disparo, também mágico, da máquina. Olha para a máquina, sabendo tratar-se de um jogo muito mais imprevisível e perigoso. Por duas razões.
Em primeiro lugar, porque a máquina não lhe devolve o olhar como o faz o espelho. Trata-se agora de um olhar no escuro, um olhar que já não se vê a si próprio nem o objecto do seu olhar. O rosto devolvido pelo espelho resulta de um olhar artesanal: o seu. É ela que domina o olhar que contempla o seu rosto. De facto, olhar para um espelho é um processo manipulador, quase manual, como se os olhos fossem mãos que moldam o rosto que lhe é devolvido. O olhar da máquina, pelo contrário, é um olhar técnico, impessoal, sem psicologia, um olhar que regista mecanicamente o seu objecto.
Em segundo lugar, porque entre o espelho e a máquina há uma tensão entre o efémero e a eternidade, entre a insustentável leveza do seu rosto e o peso desse rosto que se petrifica para sempre. Como se a máquina, ao contrário do espelho que nos dá a consciência da nossa natureza volátil, fosse uma implacável Górgona que nos imobiliza numa natureza intemporal. Olhando, dia a dia, mês a mês, ano a ano, para o espelho, Raquel sabe que vai assistindo ao espectáculo da sua própria decadência. Como na história infantil, ela bem gostaria que o espelho seu, espelho seu, lhe dissesse sempre aquilo que ela gostaria de ouvir. Mas, por muito manipulador que seja o seu olhar, jamais conseguirá vencer o imperdoável e infalível olhar do espelho, sobrepor-se à sinceridade e honestidade do espelho. Com a máquina, porém, ela irá ficar protegida das ferozes garras do tempo. Sabe perfeitamente que aquilo que a máquina lhe irá devolver é o que irá ficar para sempre.
Aliás, parece já ter percebido isso. Veja-se o que está atrás do espelho. Exactamente: ela. A parte dela que se encontra protegida atrás do espelho. O espelho dá-lhe a temporalidade, a acidez dos dias sobre a pele, mas o seu retrato atrás do espelho oferece-lhe de bandeja a eternidade. E ela sabe-o. E deve ser nisso que está a pensar: como irei ficar para a eternidade? O que irei continuar a ser já depois de um dia ter deixado de ser? Sabe que irá sobreviver através daquela máquina, que aquele instante fugaz é uma estreita porta para a eternidade. Sabe que um dia não passará mesmo só de um retrato como aquele, que já conquistou e resgatou à morte, atrás do espelho. E tinha razão, claro. Embora continue eternamente em frente àquele espelho, graças à mágica máquina de Marín, continua muito para além daquele espelho que a viu envelhecer. E é também desse lado que nós estamos sempre que olharmos para ela.