20 setembro, 2012

QUATRO ANOS DE PONTEIROS PARADOS

                                                                                JRC

Este blogue fez há pouco quatro anos. Pretexto para dar comigo a pensar por que razão me dou ao trabalho de andar por aqui em bicos dos pés a escrever sobre isto e aquilo. O que levará uma pessoa a não querer apenas escrever para a escuridão da sua gaveta, mas a escrever para os outros, assobiando com dois dedos na boca para chamar a atenção?
Assobia quem escreve num blogue, como assobia quem realiza filmes, toca música em palcos, expõe fotografias ou pinturas, faz comentário político na televisão, escreve em jornais ou publica romances. Para quê tudo isso? Ao contrário da elevadíssima riqueza intelectual e artística que podemos encontrar nessas actividades, fazer isso é tão animal e irracional como comer, beber ou foder. Escreve-se num blogue pela mesma razão que um gato insidiosamente se roça na perna de uma pessoa: para a seduzir, deixar o seu cheiro, o seu rasto, a sua marca. Um pouco mais metafisicamente: para provar a sua existência e adquirir poder sobre os outros, ainda que de um modo muito mais subtil do que o dos murros que o gorila dá no seu próprio peito.  O gorila afirma o seu poder sem seduzir. O gato seduz para ter poder.
Escrever para os outros é um processo de individuação graças ao qual é possível formar uma estrela cintilante no escuridão do universo de Pascal. A gaveta escura que ninguém vê é essa unidade primordial onde tudo está mas sem ter nome, sem ter forma, sem sequer ter aparência. Podemos entretanto perguntar porque queremos roçar nos olhos do leitor como o gato roça na perna do dono. Há quem ganhe dinheiro a escrever como outros ganham a cantar, a representar num palco ou a comentar política na televisão. Isso, claro, faz sentido. Mas quem não ganha nada com isso? Sim, claro, haverá sempre a vaidade. Mas para quê ser vaidoso? Para quê a vanitas? Por mero impulso cego. O impulso cego que faz com que desde o organismo mais elementar até ao mamífero mais inteligente, todos se queiram agarrar à vida como uma lapa à rocha. Escreve-se, por isso, para iludir a morte, para esquecer o fim ou apenas fingir que se adia, tal como o gato, com o seu impulso, julga alcançar a imortalidade na perna do dono onde deixa o seu cheiro. Coisa vã, portanto. Porém, do mesmo modo que o gato irá continuar eternamente a roçar-se na perna do dono eu irei continuar a escrever. Não sendo gato, sei que não é por escrever que evitarei a minha dissolução no nada. Mas enquanto isso não acontecer, escrever ajuda a ouvir o coração a bater.