11 setembro, 2012

OCTOBER SONG


                                                                   Aenne Biermann

Pronto, não me conformo com o maldito início de escola em Setembro. Uma modernice europeia que nada tem que ver com a velha e boa tradição portuguesa. Ao contrário do que se passa em países frios e chuvosos onde o Verão não passa de um ridículo fim-de-semana prolongado, Portugal tinha uma Trindade meteorológica que eu julgava intocável: Julho-Agosto-Setembro. Um triângulo poético feito de Verão e de férias. Fazia-se férias em Setembro como hoje se faz em Julho ou Agosto. E vinha-se ainda com tempo para descansar das férias até ao começo das aulas a 7 de Outubro.
Só que o Setembro está para esses países como o Outubro para nós. O Kurt Weil que o diga no seu September Song. Para eles, o Setembro liga com Outubro. Para nós, com Agosto. O que fizeram connosco foi ter metido a escola pelo Verão adentro como se o Setembro pedisse Outubro. Mas a escola devia apenas começar quando os dias começam a escurecer, a ficar mais pequenos, a arrefecer, a pedir um agasalho. Ou seja, durante o nosso Outubro, que é o Setembro dos outros.  Não temos a culpa de viver no sul da Europa onde em Setembro faz calor como em Agosto. E meter os jovens portugueses dentro de uma sala de aula em Setembro é tão ridículo como levar uma arara para um fiorde norueguês. As coisas são o que são e não o que se impõe por decreto. Neste caso, um acordo meteorológico tão estúpido e artificial como o ortográfico, sem benefício que se veja.
Quem entende bem a lógica do meu raciocínio é Vítor Espadinha, que sabiamente diz em Recordar é Viver, como pode recordar aquiFoi em Setembro que te conheci/Trazias nos olhos a luz de Maio/Nas mãos o calor de Agosto e um sorriso. E prossegue mais à frente: Foi em Novembro que partiste/Levavas nos olhos as chuvas de Março/E nas mãos o mês frio de Janeiro.
Está tudo neste precioso oráculo. Setembro é primo de Maio e irmão de Agosto. Com o seu sol, luz e calor, Setembro ainda pede beijos com sabor a mar, gelados de pau, canções parvas de Verão  e amores enterrados na areia. Nada de salas de aula, afias, marcadores, réguas, manuais, toques de tolerância. Como na canção de Espadinha, tudo coisas boas para os meses de Novembro, Março e Janeiro, mais adequados ao estudo da trigonometria e dos verbos. E ver os pais a comprarem material escolar em Setembro, quando deviam estar a refrescar-se, é tão estúpido como estar numa praia a cantar fado para uma multidão de banhistas a cheirarem a protector solar.
Na escola, ainda se suporta o calor de Junho pois sabemos que é para a despedida. É como beber dois litros de água sem poder ir à casa de banho antes de uma ecografia renal. É horrível mas é pouco tempo. Está-se na escola mas com a cabeça já na praia, lagoas ou piscinas. Mas começar em Setembro, com o mesmo calor de Junho, é uma aberração. É começar com o corpo e o espírito de quem está a acabar. Vira tudo ao contrário, interfere nos ritmos biológicos dos portugueses e em vez de serem 20 dias de avanço são 20 dias de atraso. Dantes,  começava-se a 7 de Outubro com a consciência de que não havendo mais praia e Verão, a escola era mesmo uma fatalidade que já não se conseguiria evitar. Hoje, os estudantes já começam cansados, indolentes, derrotados pelo calor.
Dizia Vítor Hugo que: “Aquele que abre a porta de uma escola fecha uma prisão.” Claro, Vítor Hugo viveu em França, no século XIX, não fazia ideia do que uma escola portuguesa em Setembro é uma prisão que se abre.