22 setembro, 2012

"O QUE MORRERÁ COMIGO QUANDO EU MORRER?"


                                                          Gustave le Gray | Aldeia Alpina no século XIX

Num pequeníssimo texto chamado "A Testemunha", Borges leva-nos até uma Inglaterra perdida nos confins da Idade Média, muito longe ainda da "moderna" Idade Média das catedrais, dos frescos de Giotto, da ascensão da burguesia ou da Summa Theologica. Uma Idade Média primitiva, pastoral, em que pelas suas aldeias começam a ressoar os primeiros sinos cristãos, chamando por um longínquo judeu cujo nome vai pisando as verdes e húmidas ervas pagãs que nutriu aquele povo durante séculos.
O texto serve para invocar a morte de um simples homem que, embora tenha forçosamente existido, ninguém pode saber quem foi, porque irremediavelmente perdido na arca infinita das coisas nenhumas: o último homem a viver um desses períodos, impermeáveis ao olhar do historiador, em que um mundo, outrora sólido, morre, e sobre cujos escombros um novo irá emergir. Ou seja, um "último homem". Homem que, sendo apenas um, um indivíduo, um átomo, a partir do momento em que  fechar os olhos e deixar de respirar, irá apagar a luz de um mundo que ao longo de séculos foi a casa de  milhões de seres humanos.
Cada época tem o seu  "último homem", esse pequeno átomo cuja morte será a morte da consciência viva e carnal dos símbolos, rituais, sentimentos de um mundo pagão durante o qual pensaram e agiram milhões de seres humanos. Mundo que, no exacto momento em que se fecharem os olhos desse homem, irá para todo o sempre desaparecer no inconsciente da história.
E quem diz mundo pagão diz também, séculos depois, o mundo anterior à Revolução Francesa, o Império Áustro-Húngaro, o século XIX ou Portugal da I República. O que deixou de existir do século XIX quando morreu a última pessoa a ter vivido e testemunhado o século XIX? Objectos, coisas materiais, mas também valores, modos de pensar e de sentir que deixaram de existir. Objectos como uma simples cadeira podem não ter desaparecido mas desapareceu para sempre a consciência espontânea, imediata e ingénua desses objectos. Os objectos são do século XIX mas a consciência não é do século XIX, é simplesmente consciência. A consciência do século XIX não é mais do que uma construção, uma projecção da consciência do século XX quando pensa na consciência do século anterior.
Há-de haver um dia em que também irá morrer o "ultimo homem" de um mundo que ainda é o nosso, gravado como tatuagem na pele da nossa consciência. Mas que vai morrendo ou que até parcialmente já morreu. Pode parecer trágica a morte de um último homem que testemunhou o nosso mundo que já só sobrevive com uma garrafa de oxigénio. Não é. O nosso mundo não é mais importante do que os mundos que já morreram ou daqueles que ainda estão para nascer. Um mundo, por muito importante que possa parecer, não passa de um aglomerado de pessoas sem os quais esse mundo não existe, e que desaparecem mal esses pessoas fechem os olhos. Ninguém lamenta a morte de uma pessoa quando já ninguém se lembrar dela através da sua consciência directa e imediata pois não se pode lamentar o que não se conhece e o que nunca se viveu. Nisto, a morte de uma pessoa equivale à morte de uma época. E as coisas são apenas importantes enquanto existem na consciência de quem as vive. O que vai deixar eternamente de existir tem tanta importância como aquilo que eternamente nunca chegou a existir.