06 setembro, 2012

LIBERDADE À SOLTA

                                                         Paul Strand | Wall Street

Costuma-se dizer que o fim do comunismo libertou os dentes e as garras assanhadas do capitalismo selvagem, agora de novo já sem um outro modelo concorrente que, se por um lado, parecia ter aspectos bondosos que impediam as sociedades de mercado de se tornarem indiferentes a aspectos sociais, por outro, permitia mostrar às classes médias e operárias ocidentais, a superioridade política, económica e social das últimas. De facto, tanto o comunismo soviético como o chinês, foram um pesadelo horrível, distópicas excrescências da história que nunca deveria ter acontecido. O capitalismo tinha os seus defeitos, as suas perversões, mas ninguém prefere um cancro a umas gripes mal curadas. Daí nunca se terem visto alemães ocidentais a emigrarem para a RDA ou americanos a emigrarem para a União Soviética. Se para muita gente de esquerda o capitalismo era uma merda, o comunismo, ainda que atraente à mesa do café, seria uma merda ainda pior. Actualmente, sem esse contraponto, o liberalismo selvagem está então livre para os seus desvarios.
Mas também podemos ver a coisa de outra maneira. Antes de 1989, numa época de guerra fria mas de ideologias quentes, sempre que se criticavam os efeitos perversos do capitalismo, havia logo a tentação de identificar esses críticos com simpatias comunistas e alinhamento em relação à URSS e ao bloco de leste. Quem se atrevesse a criticar a política americana, tanto interna como externa ou simplesmente pôr em causa aspectos mais negativos da economia de mercado, era muitas vezes considerado suspeito.
Ora, com o fim do comunismo e da URSS, esse complexo de esquerda já não tem razão de existir. Se o liberalismo selvagem já não tem termo de comparação para se poder exibir como mal menor e alegar a sua superioridade, também é verdade que fica mais exposto, podendo concentrar em si as críticas que anteriormente era distribuídas por todos. Perante uma crítica ao lado mais negro do capitalismo já ninguém irá responder "Pois, mas sabe, na URSS...".
O capitalismo selvagem pode-se ter libertado do comunismo. Mas não se libertou de si próprio.