13 setembro, 2012

LEITE INQUINADO

Paul Schutz | Kurdi Mother, one of the most primitive tribes of Israel, nursing child in mountain colony       

O senhor Palomar, personagem de Italo Calvino está na praia. Depois de observar atentamente o movimento de uma onda, decide caminhar. Repara que à sua frente está uma rapariga deitada numa toalha com os seios descobertos. Fica baralhado. Homem educado, decide desviar o olhar para ela não se sentir intimidada. Todavia, pensa de imediato que, ao desviá-lo, irá implicitamente assumir estar a pensar nos seios dela, sendo esse não olhar tão indiscreto e abusivo como olhar.
Há dias passei por uma coisa do género. Ia a caminhar num jardim quando vejo uma mulher, por sinal jovem e bonita, a amamentar um bebé. Instintivamente, senti o desejo de olhar. Mas o carrasco sempre de olho aberto na sombra da minha consciência, de imediato me deu um safanão, obrigando-me a desviar o olhar e a concentrar-me de novo nos meus elevados pensamentos.
Quem me diz a mim que a mulher não iria pensar que eu era um tarado? Ainda por cima tinha o marido ao lado, podendo não gostar de ver um desconhecido a olhar para a mama da sua mulher. E o facto de ela ser jovem e bonita jogava contra mim. Eu poderia estar a olhar para a sua mama, não por estar candidamente a amamentar um bebé mas apenas por ser a mama de uma mulher jovem e bonita para a qual olharia lascivamente ainda que não estivesse a amamentar.
Mas depois acabei por me sentir ridículo por desviar o olhar. Bolas, não sou um tarado a precisar de ser fustigado pela minha consciência moral. Haveria necessidade de dar uma bofetada em mim mesmo como se estivesse a preparar-me para esfaquear alguém, assaltar um banco ou voltar a votar no PSD? Não. Porém, ao desviar o olhar, poderia estar a dar a indicação de ter uma mente suja, pensamento que me deixou deveras perturbado e ansioso.
Tudo isto aconteceu em poucos segundos, resultado dos meus complexos mecanismos emocionais. Racionalmente, porém, é tudo muito mais simples. Uma mulher que amamenta não é uma mulher que amamenta: é uma mãe que amamenta. E as mamas de uma mãe que amamenta não são propriamente as mamas da Pamela Anderson a correr em fato de banho no areal de Malibu, coagindo os olhares masculinos a movimentarem-se como os dos espectadores de um jogo de ping-pong, só que com uma trajectória vertical. 
Mas pelos vistos não é assim tão simples, como se pode aferir pela recente polémica mamária do Nipplegate. Rapidamente: A New Yorker foi temporariamente banida do Facebook por apresentar conteúdos moralmente ilícitos, violando os seus rigorosos preceitos relacionados com sexo e nudez. Neste caso, através de um cartoon no qual se vêem dois bonequinhos, Adão e Eva, debaixo de uma macieira, podendo-se ver neles (ou melhor, nela) dois pontinhos que representam os mamilos. 
Ok, tudo bem, apesar de eu não ser um moralista exacerbado, até consigo compreender que ver duas pintinhas no peito de um boneco pode ser moralmente ofensivo. Agora, o que já me fez alguma confusão foi descobrir aqui que um dos conteúdos a ser de imediato banido do FB é precisamente um peito materno  que amamente sem estar devidamente coberto. Ora, isto constitui um enorme retrocesso civilizacional. Basta ver a pintura religiosa, desde as inúmeras representações da Senhora do Leite à exibição orgulhosa, numa bandeja, dos seios de Santa Ágata, após a sua mutilação. E falo em pintura religiosa exactamente por ser a mais sensível, dispensando a arte em geral, toda ela atravessada pela nudez.
Ontem comecei com Nietzsche, hoje termino com ele. Do que tem medo esta gente que precisa tanto de esconder, iludir, exibir orgulhosamente a sua moralidade? A Idade Média não foi apenas uma época histórica. A Idade Média é um estado de alma.