14 setembro, 2012

JULIA MARGARET CAMERON - HIPATIA DE ALEXANDRIA


Há, na adesão do olhar novecentista a esta representação fotográfica de Hipatia de Alexandria, uma ingenuidade e espontaneidade que, entretanto, se tornaram impossíveis para os nossos contemporâneos esquemas mentais.
A fotógrafa inglesa está habituada a usar a sua máquina para fazer retratos históricos. Desta vez, em 1865, escolhe Marie Spartali para Hipatia. A fotógrafa sonha, a obra nasce, os amantes desta nova arte agradecem. Porém, olhar para esta representação fotográfica de uma figura histórica, soa ridículo em 2012. Não o seria caso se tratasse de uma pintura ou da imagem de um filme no qual uma actriz chamada Marie Spartali fizesse de Hipatia. Soa ridículo, porque se trata de um retrato que explora uma verosimilhança que hoje já não é possível. É possível na pintura, no teatro ou num filme onde se representasse a mesma figura histórica. Acontece que na pintura, no teatro ou no cinema, embora saibamos que a figura histórica representada seja falsa, explora-se uma verosimilhança que leva a que tacitamente aceitemos a ilusão de ser verdadeira. A fotografia, pelo contrário, com a sua banalização, tornou-se mais num ordinário recurso de registo do quotidiano do que propriamente numa arte. Obviamente que estou a deixar de lado a fotografia que se assume explicitamente como arte.
Em 1856, todavia, a fotografia é uma arte (e técnica) que dá os seus primeiros passos e cujo efeito mágico de um assombramento no espectador, induz facilmente a mesma ilusão existente há séculos na pintura. A fotógrafa, com a sua máquina na mão, sente que cria um mundo como se fosse um pintor com os seus pincéis. Pensa num objecto, fá-lo nascer e o espectador entra no jogo, acreditando no seu valor de verdade.
Neste caso, mais gritante se torna pelo facto de a retratada, pintora pré-rafaelita, estar habituada a pintar figuras históricas de cariz medieval. A pintora de retratos verosímeis ela própria transformada num retrato verosímil.


Jogo impossível para nós. Para o olhar ingénuo e pouco trabalhado do século XIX, ainda é possível separar a mulher empírica (Marie Spartali), aqui nesta segunda fotografia, e essa mesma mulher transformada em Hipatia. O olhar do século XIX consegue olhar para cima e ver Hipatia, olhar para baixo e ver Maria Spartali. Basta  mudar a roupa e a pose. Para nós, porém, esta facilidade, esta graça do olhar que brota espontaneamente, já não é possível. Porque a fotografia, e sobretudo a fotografia enquanto retrato, se transformou cada vez mais numa espécie de segundo olhar, tão mimético e fisiológico como o olhar natural, ao contrário da linguagem cada vez mais depurada e artificial da pintura moderna ou da própria fotografia já como exercício estético e artístico. E, mais uma vez, ao contrário também do cinema e do teatro, exercícios representativos cuja descontinuidade em relação ao mundo empírico é evidente. Daí a facilidade da nossa adesão ao jogo ilusório da verosimilhança ainda que se trate de pintura, teatro ou cinema fortemente realistas ou mesmo neo-realistas.


Não é por acaso que para um olhar contemporâneo será mais fácil aceitar o valor artístico deste retrato de Maria do que a fotografia em que faz de Hipatia. Claramente pictorialista, processo muito em voga no século XIX e princípios do século XX, que, através de uma manipulação técnica, pretende que a fotografia se torne cada vez mais artística e próxima da pintura, mais artificial e menos mimética ou mecânica.
No século XIX seria possível ver o retrato de Hipatia de Alexandria numa parede como se veria uma pintura. Hoje, seria impossível. Mas seria possível ver este retrato de Maria Spartali. O mundo contemporâneo não se tornou apenas artificial através da técnica, não é apenas a virtualidade tecnológica que nos define. O olhar, mesmo o olhar mais espontâneo e simples, vindo da retina, da pupila, da íris ou da córnea, também já não é o mesmo e apenas se compraz nos seus próprios artifícios.