01 setembro, 2012

HI, MAC!


Uma das coisas que me incomodam nas poucas vezes que me sento para ver um telejornal, é ser obrigado a suportar figuras públicas que desprezo, desde ministros, secretários de estado ou directores vaidosos consigo próprios e com o poder que conquistaram a dirigentes desportivos boçais, passando por gente de segunda absolutamente pindérica. Daí ter quase deixado de ver telejornais. Sei das coisas, mas sei-as ao longe, em abstracto, sem ter que sentir a halitose social de tanta gente inconveniente e tão pouco recomendável. Sei, mas não lhes oiço as vozes, não vejo as bocas e olhos a mexer. Sei da sua existência, os seus nomes, o que fazem, mas sei-o como o matemático sabe dos seus axiomas ou o físico das suas leis: meras abstracções.
Pergunto agora: será blasfémia ou mera irresponsabilidade cívica, durante a hora do telejornal, um tipo estar de televisão desligada comodamente sentado a ler o Quixote ou o Macbeth? Será isso um acto em si mesmo quixotesco? Quer dizer, estará a secar o cérebro com ficções enquanto os outros tomam o seu duche diário de realidade em pequenas doses informativas? Perde-se-á alguma coisa do mundo com a televisão desligada enquanto esta despeja informações sobre esse mesmo mundo?
Quixote versus Telejornal, quem ganha? E quem diz o Quixote, diz a Ilíada, a Oresteia, o Vermelho e o Negro, Guerra e Paz ou As Viagens de Gulliver. Ok, já decidi: o Quixote. A equipa dos escritores, a da ficção, dá um valente baile à equipa dos jornalistas, a que veste a camisola da informação.
Não há nada que a realidade me dê que não me seja previamente dado através da ficção. Tudo o que acontece no mundo concreto e sensível não passa, no fundo, de emanações de um mundo de arquétipos construídos pela genialidade artística de grandes escritores.
A realidade que me é dada pelo telejornal é sempre uma realidade contingente, feita de actos contingentes por sua vez praticados por pessoas contingentes. Passos Coelho ou Miguel Relvas existem como poderiam não existir. Passos Coelho é primeiro-ministro como poderia ser contabilista de uma empresa de construção de Massamá ou barítono no S. Carlos. Dentro de algumas décadas já ninguém saberá quem foi o Passos Coelho que, condensado no telejornal através de uma feira de queijos ou à saída de um quartel de bombeiros, me entra diariamente pela consciência adentro com violência. Graças a Deus, menos gente ainda saberá quem foi Miguel Relvas. Será pois que mereço estar a ser violentado com personagens que muito rapidamente irão estar reduzidos ao pó da sua superlativa irrelevância?
Na literatura, pelo contrário, as suas personagens e situações são arquétipos intemporais que adquirem um valor absoluto, esquemas inteligíveis que transcendem qualquer país, língua, época ou conjuntura. Agamémnon, Macbeth, Sorel, Calisto Elói ou a Gouvarinho estão por todo o lado mas os verdadeiros, os consistentes, os que apresentam uma solidez inteligível são apenas um. Os exercícios de poder, as crises, a guerra, a ambição, a vaidade, a ganância, os conflitos, os acidentes, a pobreza, os dramas humanos, tudo está na literatura. Por que razão hei-de estar a sujar o meu cérebro e a perturbar a minha tranquilidade doméstica com gente detestável, quando as posso ter na literatura, em estado bacteriologicamente puro, como arquétipos imaculados? Por que razão hei-de estar a ver Miguel Relvas na televisão, sabendo que o seu grande objectivo, para além de ter dinheiro, é ser visto na televisão? Por que razão hei-de ser cúmplice da sua vaidade, cair na armadilha, jogar o seu próprio jogo e ajudá-lo a ganhar? Se eu limpo sempre os pés quando entro em casa, por que razão haveria de estar, na minha própria casa, a sujar o meu cérebro, quando tenho a possibilidade de pairar inteligivelmente sobre o mundo?
No mundo há lugar para todos pois o mundo não é de ninguém. Mas no meu mundo mando eu e só entra no meu mundo quem eu quero. E prefiro que o meu mundo seja povoado  por personagens saídas de criadores geniais e inteligentes do que por figuras de carne e osso que aparecem e desaparecem aleatoriamente, de acordo com circunstâncias que ninguém domina. A Macbeth teria eu todo o prazer em apertar a mão. Porque, pura e simplesmente, não existe. A sua irrealidade é perfeita e devemos-lhe isso.