28 setembro, 2012

CHÁ EM S. PETERSBURGO



Regressado dos EUA, onde esteve durante a guerra ao serviço do governo britânico, e antes de regressar à sua vida académica em Oxford, Isaiah Berlin realiza uma missão diplomática em território minado: a União Soviética. Nascido em Riga, viveu depois em em S. Petersburgo até aos 10 anos, idade com que parte  para Inglaterra com os pais, judeus burgueses, fugidos da revolução bolchevique. Fala por isso um russo imaculado e sem sotaque. Durante esse período soviético faz tudo para se encontrar com figuras da cultura russa. O excerto que se segue é relativo a uns dias que passou na sua antiga cidade, agora chamada Leninegrado, ao descobrir a possibilidade de se encontrar com Akhmatova:

Berlin asked him about the fate of writers in Leningrad. 'You mean Zoshchenko and Akhmatova?' Orlov replied, as if no other names among two hundred writers of the city were worth mentioning. 'Is Akhmatova still alive?' asked Berlin. 'Akhmatova, Anna Andreyevna?... why yes, of course. She lives not far from here. Would you like to meet her?' 'It was as if I had suddenly invited to meet Miss Christina Rossetti' recalls Berlin; 'I could hardly speak: I mumbled that I should indeed like to meet her'. [György Dalos, The Guest from the Future - Anna Akhmatova and Isaiah Berlin]

Muito engraçada esta espontânea ligação entre Christina Rossetti e Anna Akhmatova. Christina é um dos principais modelos da mulher pré-rafaelita, etérea e de uma irrealidade quase inumana. Akhmatova, com a sua vida reduzida  pelo terror estalinista a uma mancha difusa, esvaída no tempo e na memória, é um eloquentíssimo modelo de si própria.
O entusiasmo de Isaiah Berlin não deve ser por se encontrar com Anna Akhmatova como se fosse uma Christina Rossetti. No meio daquela fétida lixeira soviética, não deveria existir ar mais puro e orvalhado para respirar do que tomar uma chávena de chá com um fantasma que vagueia através dos seus poemas. Naquela noite em que se encontraram, o diplomata Isaiah Berlin dever-se-á ter esquecido de uma cidade chamada Leninegrado e dos relatórios que teria de escrever para Londres. Levado pela mão de um fantasma, S. Petersburgo deverá ter de novo acendido as suas luzes nesse enorme e feérico salão que só na memória consegue existir.