12 setembro, 2012

A MANCHA VIRTUAL


Nietzsche não era adivinho e jamais poderia adivinhar a Internet. Mas ao prever alguns aspectos essenciais do século XX, acabou por implicitamente adivinhar alguns dos aspectos essenciais desse mundo virtual: o seu radical espírito democrático, o seu igualitarismo, o seu plebeísmo.
Eu adoro a Internet e sou um enorme beneficiário dela. Apesar de viver numa terrinha chamada Torres Novas e de mal ter dinheiro para mandar cantar um cego, graças à Internet, estou, sem gastar um cêntimo, ao mesmo nível de um habitante de Londres, Paris ou Nova Iorque no acesso a uma quantidade infinita de bens e produtos.
Mas como tudo na vida, e como se pode ver aqui, também ela não é perfeita. O escritor norte-americano Philip Roth descobriu na Wikipédia um valente erro a respeito do seu romance (excelente, diga-se), A Mancha Humana. Tendo pedido à Wikipédia a correcção do erro, foi informado de que apesar de o "autor ser a maior autoridade a respeito do seu próprio trabalho", serão necessárias fontes secundárias para se poder alterar a informação.
Eu sei que há aquela teoria segundo a qual a partir do momento em que uma obra de arte é publicada passa a ser de todos e não apenas de quem a criou. Mas isto aqui é diferente. De acordo com o que se pode ler na Introdução da Wikipédia, pode-se editar à vontade, "Quanto mais conhecimentos agregarmos às nossas páginas melhor será para a Humanidade!", permitindo que cada vez mais pessoas tenham cada vez mais acesso ao maior número de informação. Ora, isto é óptimo. Quando ainda andava no liceu ofereceram-me como prenda de Natal a Enciclopédia Luso-Brasileira. Na altura, sempre que era preciso fazer um trabalho de grupo, ia-se para minha casa pois era lá que estava a informação. Era mau? Não, era péssimo. É péssimo viver num país onde a informação esteja apenas ao alcance de alguns.
Mas, como em tudo, também aqui a banalização, a facilidade, a extrema acessibilidade da informação pode naturalmente degenerar. E se uma cultura oligárquica é repugnante, uma cultura bolchevique (ver aquimaioritário em russo, o oposto de menchevique, minoritário) de atraente também nada terá.
Ver Philip Roth, um aristocrata das letras e intelectual nobre, a ser relegado para segundo plano pelo poder das fontes secundárias, também não é bonito de se ver.