29 setembro, 2012

A FÓRMULA RESOLVENTE


                                                     Nadar | o próprio fotógrafo com a sua mulher Ernestine

Na secção de anúncios do Jornal Torrejano desta semana, não pude deixar de reparar neste: 

"Cavalheiro, 63 anos, divorciado, reformado, pretende senhora até 65 anos, que goste de praia e excursões, para futuro compromisso. Assunto sério."

Mais do que perplexo, é mesmo sensibilizado que fico com esta pré-socrática simplicidade no modo como se deseja construir a relação entre um homem e mulher. Desde que leio romances, vejo filmes ou simplesmente observo a realidade à minha volta, que tenho a consciência de que a relação entre um homem e uma mulher é um mundo complexo no qual se jogam subtis pressupostos, negociações, compatibilidades e resistências.
E quanto mais tenho consciência disso, mais me comovo com o anúncio deste sexagenário, qual Tales de Mileto, qual Anaximandro, qual Anaxímenes, que reduz toda a essa habitual complexidade de uma relação amorosa a uma archê, a um princípio simples, básico, originário e fundador, neste caso, feito de  praia e de excursões. 
Um dia vi um prémio Nobel da Física dizer que seria possível, ainda que num longínquo e imprevisível futuro, reduzir toda a complexidade do universo a uma simples fórmula que facilmente se possa estampar numa t-shirt de praia. Eis o que o nosso sexagenário faz com as relações amorosas: uma fórmula. E uma fórmula de uma elegância quase matemática ou de uma simples e rápida jogada de xadrez da qual, porém, resulte um poderoso xeque-mate. 
Longas horas de praia e mil excursões para os nossos sexagenários.