16 julho, 2012

ORAÇÃO FUNDA




Há dois actos não passíveis de serem filmados: a oração e o sexo. Orson Welles dixit e faz todo o sentido.  São actos privados, de recolhimento, de intimidade, de ensimesmamento. Actos que, embora opostos, têm um aspecto em comum: a sua marginalidade face às convenções sociais. O primeiro, de total abertura a uma transcendência metafísica, o segundo, de total abertura a uma imanência física, que acaba por ser também uma forma de transcendência face ao que há de socialmente mais visível e tangível, derivando ambos, neste sentido, de uma subjectividade pré-social. Tanto num como noutro não é preciso estar de “olhos bem abertos” para pensar no papel que os outros esperam de nós. Há o luxo de se poder ter os olhos fechados e esquecer o mundo lá fora. Daí os rostos de quem reza e de quem faz sexo, ao contrário do que se passa nos inúmeros palcos da vida social e política transformada em espectáculo, serem rostos que não devem querer ser olhados, salvando deste modo a sua liberdade, espontaneidade e individualidade. Daí que filmar o sexo seja pornografia.
Porém, o ethos pornográfico não pode ser apenas visto na domínio da visão, do olhar, do Peeping Tom, de quem deseja olhar o que não foi feito para ser olhado. A pornografia começa desde logo na representação teatral de quem é filmado ou fotografado, em quem faz sexo com a consciência de que está a ser visto e que o faz com o propósito de ser visto. É isso que distingue dois amantes de dois actores pornográficos, ainda que no plano objectivo possa não existir diferença.
Daí o interesse desta fotografia, captando o momento de uma missa, há anos, pela alma de Sá Carneiro. Olhando para estes seis homens, torna-se difícil saber quem reza com convicção ou por mera convenção, conveniência social e calculismo político. Exteriormente parecem todos iguais embora alguns pareçam mais iguais do que outros. Mas há aqui um caso verdadeiramente particular: um actor assumido. Um actor pornográfico, revelando orgulhosamente o seu falo narcísico, lançando o seu olhar lascivo enquanto namora com a máquina fotográfica que ali está para captar o desempenho religioso e espiritual dos seis actores. Tal como o actor pornográfico, que não faz sexo por amor mas apenas para ser visto a fazer sexo, o jovem Relvas não reza pela alma de Sá Carneiro mas apenas porque precisa de ser visto a rezar. 
Trata-se, porém, de um péssimo actor, ao contrário dos seus companheiros de oração. Tal como no cinema porno, o bom político precisa de aprender a simular um orgasmo. Neste caso, when Miguel met the camera, não no restaurante, mas na igreja, ninguém deve ter vontade de perguntar qual o alimento religioso e místico que levou o agora ministro às alturas.