19 julho, 2012

ON EST PAS SÉRIEUX QUAND ON A 17 ANS



Estamos em Julho e lembrei-me da mítica manifestação da Fonte Luminosa, em 1975. Estive lá e a sua memória ainda hoje me causa uma sensação de ambiguidade. Por um lado, fez parte de um período divertido e emocionante da nossa história. Por outro, foi o balde de água fria de que Portugal precisava para se poder tornar num país adulto.
Foi um dia bem passado, com uma alegre e animada excursão com farnel a condizer. O pior foram as várias paragens obrigatórias por causa dos piquetes revolucionários para revistar as camionetas contra-revolucionárias. Foi difícil, mas chegámos perto de Lisboa. Digo bem: perto. A entrada de Lisboa estava bloqueada pelos guardas da revolução, como se Lisboa fosse Teerão depois da queda do Xá. A solução encontrada foi engenhosa. Anónimos militantes socialistas vinham até à portagem para nos levarem de carro para a Alameda. 
Antes dos actuais festivais da Super-Bock-Super Rock ou do Rock in Rio, estas divertidas manifestações eram as grandes concentrações de massas que davam aos portugueses uma sensação febril de comunhão dionisíaca. Ficaram na minha memória como ficarão na de um jovem de agora os concertos.
Fui à da Fonte Luminosa dizer que não queria o PCP, pequeno partido com 12,5% dos votos, a governar Portugal e que tentava por via palaciana e revolucionária o que não conseguia nas urnas. Fui ao Pavilhão dos Desportos ouvir Salgado Zenha no seu célebre discurso contra a unidade sindical. Fui a Belém pedir a Costa Gomes para pôr o país na ordem. Pronto, agora a sério. Sabia apenas vagamente quem era Costa Gomes, a problemática da unidade ou unicidade sindical dizia-me tanto como como uma discussão de físicos sobre a teoria das cordas, e queria lá eu saber quem governava o país desde que os meus pais me continuassem a dar dinheiro para comprar discos. Aliás, achava desinteressante tudo o que não tivesse que ver com música, roupa que me desse um ar vagamente anarquista e raparigas que gostassem de rapazes com um ar vagamente anarquista. A manifestação era, por isso, apenas um pretexto para ir passear a Lisboa, sobretudo para ver miúdas giras mesmo que não tivessem o ar de gostarem de rapazes com um ar vagamente anarquista e, se possível, passar pelos Porfírios para ter aquela sensação de que estava em Londres sem nunca lá ter posto os pés.
Por muito estranho que pareça, trata-se de um saudoso período. Porque era ter 15 anos num país também com 15 anos mas que poderiam ser 17. Por isso, a manifestação da Fonte Luminosa foi um exercício pedagógico necessário para Portugal entender que o adolescente bacanal do PREC teria que chegar ao fim e que há um dia na vida em que temos mesmo que fazer 18 anos. 
Não dava mesmo. Portugal estava com grandes olheiras, muitas noites sem dormir e de grande algazarra. Eles eram canecas cheias de igualdade, eles eram shots de elevadíssimo teor revolucionário, eles eram comprimidos de utopia química. Uns fumavam charros ideológicos vindos da URSS, outros, vindos da China, outros ainda, da bíblica Albânia, a terra do leite e do mel onde as pessoas riam 24 horas por dia mesmo quando estavam a chorar.
Portugal precisava, pois, desta manifestação. De um bom par de chapadas. De um raspanete vindo de um adulto lúcido como Mário Soares, que pusesse na linha adolescentes traquinas e inconscientes como Otelo, Cunhal ou o Companheiro Vasco a cujos pés vimos cair a muralha de aço, muito antes ainda da muralha de Berlim que caiu de podre.
Digo isto com indulgência cristã em relação ao PCP. Sempre gostei do PCP, fiz passagens de ano em sedes do PCP, fiz parte de uma Associação de Estudantes numa lista da JCP, cheguei mesmo, ainda estou para perceber como, a conseguir arranjar uma namorada numa Festa do Avante com um crachá da Catarina Eufémia, o que me permitiu a sensação única de estar a namorar com a voz da Luísa Basto a cantar “Avante Camarada”.  Coisas que não se esquecem. 
Mas amigos, amigos, negócios à parte. O destino do PCP não era governar Portugal. Tenho, pois, graças a esta manifestação, a sensação de ter assistido a um momento importante da História. Hegel viu o Espírito do Mundo em cima de um cavalo quando viu Napoleão a entrar em Iena. Anos depois, percebi que vi Mário Soares em cima do palanque acertando as horas no relógio de Portugal.
A história do Mundo, apesar de torta como um lenho retorcido, veio mostrar que era Mário Soares quem tinha razão e não Cunhal, Otelo ou o Companheiro Vasco. Graças a esta manifestação, Portugal mostrou, em 1975, que o seu objectivo era 1989 e não 1917, apesar de 2012. Portugal cresceu, amadureceu, mas não ganhou o juízo que era suposto ganhar com os 18 anos. Pois, mas isso já é outra conversa.
Há quem deite Portugal no divã e diga que se trata de um caso psicanalítico. Para mim é algo que está mesmo na massa do sangue deste país e que não passa só pela noite de folia do PREC. Passa, sim, por oito séculos de história, em que quase sempre vivemos como se tivéssemos 17 anos mesmo quando não podemos fazê-lo, ou seja,  sempre.