04 julho, 2012

NINGUÉM É ANNE FRANK, SOMOS TODOS ANNE FRANK


Neste pequeno filme, passado numa qualquer rua de Amsterdão nos anos 30, vemos uma noiva a sair de casa, de braço dado com o pai. O amador que filmou, provavelmente um familiar, quis igualmente registar o entusiasmo da vizinhança, que à janela ou na rua, quer testemunhar o acontecimento. Foi em Amesterdão como poderia ter sido num bairro de Lisboa.
Ao circular por um dos prédios, a câmara passa por uma janela, onde, durante três brevíssimos segundos, vemos uma rapariga entusiasmada. Uma vulgar rapariga holandesa, de uma vulgar família holandesa, numa vulgar rua holandesa. Porém, o facto de a rapariga se chamar Anne Frank, altera radicalmente não apenas o valor desta pequena filmagem mas também a sua identidade.
Nestes três segundos, Anne Frank não é ainda Anne Frank mas simplesmente Anne Frank. Um mesmo nome mas duas identidades. O nome de uma vulgar rapariga, tão vulgar como qualquer outra rapariga daquele prédio ou daquela rua mas também o nome de uma rapariga que veio a tornar-se numa das figuras mais conhecidas do século XX. Se a segunda rapariga não tivesse existido (imaginemos que Adolf Hitler nunca teria chegado ao poder ou que, embora tivesse chegado ao poder, Anne Frank não tinha escrito qualquer diário), nesta filmagem não teríamos capacidade para vermos a primeira, um simples corpo anónimo à janela. Porém, a partir do momento em que a segunda rapariga existiu, neste momento deixamos de ser capazes de ver a primeira, ou seja, já não conseguimos ver a verdadeira rapariga por detrás do mito que se lhe sobrepôs. A partir daqui podemos fazer duas leituras. Uma pessimista e outra optimista. Uma desmistificadora e outra mistificadora. Uma anti-egocêntrica e outra egocêntrica.
De acordo com a primeira, podemos perceber o vulgar ser humano que existe em cada mito. Em cada mito, seja político, revolucionário, artista, filósofo, guru religioso ou candidato a Deus, haverá sempre uma vulgar menina que vem à janela, invisível, completamente tapada pelo biombo da normalidade. Um vulgar ser humano que, em virtude de um processo de mistificação, idolatria, culto da personalidade, fama, etc., adquire um estatuto artificial e adulatório que se sobrepõe à sua verdadeira natureza e identidade.
Porém, também podemos olhar para esta vulgar menina holandesa e, em função do estatuto que adquiriu historicamente, fazermos o esforço de compreender a irredutível e exclusiva importância de cada ser humano, o carácter único e especial de cada ser humano. Trata-se, é verdade, de uma vulgar rapariga, mas sabemos também que todos nós, graças a um conjunto feliz (ou infeliz) de circunstâncias, poderíamos ser aquela rapariga. E perceber que em cada janela, em cada banco de escola, em cada lugar de autocarro ou de metro, em cada vulgar fábrica, loja ou escritório, existe uma Anne Frank, uma rapariga que ficou para a história e cuja casa é um museu. A esmagadora maioria das pessoas, escondida sob o anonimato da massa, não fica para a história. Mas podia ter ficado, a sua essência, enquanto ser humano, indivíduo, pessoa, é exactamente a mesma.
Lembrei-me, a este respeito, de um livro de Danilo Kis, chamado A Enciclopédia dos Mortos. Trata-se de um conjunto de contos em que o fantástico surge subtilmente misturado com a realidade. O conto que dá precisamente o nome à obra é verdadeiramente sublime. 
Em Estocolmo, a personagem principal é levada até uma biblioteca onde os livros, tal como as garrafas velhas numa adega, se encontram envolvidos em teias de aranha e encadeados uns nos outros como os homens das galés. Cada sala é dedicada a um letra do alfabeto. O que há então nessa biblioteca? Uma enciclopédia na qual se pode encontrar o mais microscópico registo biográfico de todas as pessoas mortas. Todas mesmo? Não. Há uma condição para se estar registado: não ter o seu nome em qualquer outra biblioteca. Ou seja, apenas as pessoas anónimas e comuns têm esse direito. A personagem dirige-se então até à sala do C, na qual irá procurar o registo do pai, morto pouco tempo antes. E o que vai encontrar, afinal? Tudo. Literalmente, tudo.
Todos os factos da vida do pai, as suas sensações, as suas experiências, as paisagens que viu, as roupas que vestiu, as coisas que comeu, todas as pessoas que conheceu, as notas que teve, a meteorologia associada aos factos da sua vida, enfim, tudo, desde o nascimento até à sua morte, está lá registado. Até um trenó da sua infância lá aparece (faz-me lembrar qualquer coisa...). E tudo isto, para quê? Os autores desta enciclopédia acreditam na bíblica ressurreição da alma e, com tais ficheiros, permitem que os mortos possam não só reencontrar os seus próximos também já mortos, como recuperar todo o seu passado.
Estamos perante o conto ideal para pessoas que, não sendo Platão, nem Miguel Ângelo, nem Newton, nem Einstein, nem John Fitzgerald Kennedy, nem Anne Frank, precisam de saber que também são únicas e que tudo o que viveram e sentiram foi vivido e sentido apenas por si e que, por isso mesmo, sempre que morre um ser humano, é todo um universo rico e complexo que desaparece, apesar de nem sempre termos a capacidade para o entender.