12 julho, 2012

IT'S ONLY ROCK AND ROLL BUT I LIKE IT

  Grace Robertson

No meu tempo de faculdade, um dos processos mais eficazes usados por alguns estudantes para adquirirem superioridade intelectual sobre os colegas, consistia em debitar o maior número possível de palavras alemãs. Daí haver fedelhos de 20 anos, com ar grave e sério, a balbuciarem palavras como "Weltanschauung", "Heimatlosigkeit" ou "Selbstbewusstsein" com a mesma naturalidade com que outros, menos dados à elevação especulativa, pediam uma "Imperial com um pires de tremoços".
Desgraçadamente, o meu alemão de praia reduzia-se a coisas mesquinhas e vulgares do tipo "Ich liebe dich" ou "Ich möchte Neil Young hören". Mas ficou para sempre no meu imaginário um daqueles conceitos obscuros que de vez em quando me chegavam aos ouvidos, e que ainda hoje consigo dizer sem me rir sempre que quero impressionar uma mulher, convencendo-a de que sou um tipo inteligente, profundo e consegue conversar sobre coisas interessantes pelo menos durante meia-hora após o sexo: aufhebung. Infelizmente nunca tenho sucesso, mas também devo admitir que o meu sotaque alemão faz lembrar o de um pedinte romeno numa rua de Berlim. Aufhebung pode parecer o nome de um medicamento para a prisão de ventre mas tem um objectivo bem mais elevado. É especialmente usado para explicar a dialéctica hegeliana, exprimindo, em simultâneo e paradoxalmente, a ideia de superação e de conservação. Todavia, graças à sua versatilidade conceptual e com um bocadinho de imaginação, poderá ser aplicado a tudo, desde a culinária à política, passando pela história do bidé ao longo dos tempos.
Isto explica bem por que razão me lembrei do conceito de aufhebung quando vi esta notícia. Qual o verdadeiro segredo da longevidade dos Stones? Precisamente a capacidade de se tornarem permanentemente outro sem deixarem de ser o mesmo. Está a fugir-me o pezinho para a ontologia mas é mesmo isso. A identidade stoniana é essencialmente feita de diferença. Envelheceram? Envelheceram. Mas souberam envelhecer. E saber envelhecer é precisamente ser capaz de se adaptar aos novos tempo, ser capaz de sobreviver num mundo sempre em mudança, mas sempre fiel ao seu código genético.
Apesar de não serem os mesmos, continuam a tocar o Jumpin Jack Flash como há 50 anos, com a mesma energia de sempre, a mesma irreverência de sempre. Não são os mesmos, não podem ser os mesmos. Mas o seu mundo continua a ser o mesmo, sendo a ele fiéis. Sem pretensões estéticas, sem já querer revolucionar a história do Rock, enfim, sem mexerem na sua essência ou estarem obcecados com um inovador futuro que os separe do primeiro concerto de há 50 anos. Encontraram a fórmula correcta que faz funcionar a máquina e, a partir daqui, não há grande coisa a fazer a não ser deixar apenas a máquina funcionar. I know, it's only rock and roll, but I like it! Uma lição.