13 julho, 2012

GAUGUIN SEM COR




Há dias, ia morrendo de tédio com um filme sobre a vida de Gauguin. Há muito tempo que não via um filme tão mau. Apenas o vi até ao fim por causa do meu interesse e curiosidade a respeito da vida do pintor. Não valeria pois a pena perder um minuto que fosse a falar de um filme assim. Porém, torna-se interessante pensar como pode um filme ser tão mau e aborrecido, quando, como é o caso, acaba por ser um filme tecnicamente correcto (imagem, som, luz, cor, ritmo narrativo, interpretação) e cumprindo bem o seu didáctico objectivo (na arte, o didactismo provoca-me sempre calafrios) de explicar os momentos mais relevantes da vida de Gauguin. 
Quem quiser conhecer a vida do pintor ficará satisfeito com este filme. Ou quem quiser conhecer os ambientes em que viveu. Ou conhecer a alma atormentada do pintor e da mulher, mediatizadas por Kiefer Sutherland e Natasha Kinski. O filme, porém, é uma tremenda porcaria. Como explicar?
O que faz um bom filme não é um bom argumento, uma boa história. Se assim fosse, bastaria a própria vida  atormentada de Gauguin para o garantir. Nem é o facto de ser um filme tecnicamente competente, como se a equipa que o realizou terminasse um curso de cinema com 20 valores, respeitando as regras básicas subjacentes à construção de um filme.
O que faz um bom filme é qualquer coisa que me fere (Barthes), que me toca, uma ruptura na monótona continuidade e falsa espontaneidade do tecnicamente correcto. O que faz um bom filme é haver nele um isco que me atrai e eu mordo vorazmente sem dele poder escapar, como se nada mais houvesse no mundo senão o filme que estou a ver. Seja pela fotografia, seja pelo ritmo narrativo, seja pela banda sonora, seja pela interpretação, seja pelo modo como os planos são filmados. Um bom filme é uma totalidade cheia de pequenos ou grandes iscos que me prendem e dos quais não me quero libertar, lutando mesmo pela sua retenção na minha memória sensorial. Como se a minha memória sensorial fosse igualmente um isco que  deseja prender o próprio isco que me prende.
E quem diz um bom filme, diz uma boa pintura ou uma boa fotografia. Eu já vi pinturas ou fotografias tecnicamente imaculadas e que abandono após 3 segundos. Olho para elas e quero logo ir-me embora. Porque têm tudo mas ao mesmo tempo não têm nada. Têm um corpo mas um corpo inanimado, um corpo sem sangue a correr nas veias e sem uma voz que me chame e me prenda o olhar. Após o primeiro olhar, resta apenas o tédio da normalidade e para normalidade já basta a própria realidade.
Em clara oposição a este péssimo filme, vi há tempos um outro absolutamente vertiginoso: O Cavalo de Turim. Um filme com apenas duas personagens (fugazmente uma terceira) e um cavalo. Personagens sem qualquer brilho e beleza, habitando sempre um mesmo espaço espaço deserto e feito de um vento preto e branco.  Vertiginoso, porque todo ele feito de rupturas e de elementos descontínuos face às vulgares e primárias intuições de um senso comum estético, para o qual uma obra de arte será tanto melhor quanto mais satisfizer a nossa necessidade de confirmar a coerência entre a nossa percepção e a realidade. Um filme todo feito de repetição, onde quase nada acontece, uma história quase sem história, mas todo ele cheio de iscos que nos agarram a esse poço sem fundo que é uma existência sem sentido. Filmar a ausência de sentido, fazerem-nos ver essa ausência com a mesma clareza com que vemos um copo em cima da mesa ou a luz do Sol ao meio-dia não é para todos. Se a ideia for apenas fazer um filme basta seguir o manual de instruções.