17 julho, 2012

A FRANÇA



Parece que a França está mesmo decidida a ser um grande país de pequenos dirigentes. A França de Luís XIV foi enorme como Versalhes, mas o Rei que era Sol usava sapatos de tacão alto e uma enorme peruca para disfarçar a sua pequenez. Napoleão, que aterrorizou a velha Europa, não usava peruca mas o cavalo dava-lhe imenso jeito para conseguir ver os outros a partir de cima. E apesar de presidentes como De Gaulle, Giscard  ou Chirac, a França, anos depois de Mitterrand, encontra-se numa fase de transição entre dois baixotes. 

A minha dúvida é se há razões para tentar descobrir algum significado nesta recente tendência francesa que abrange os dois grandes partidos. Sei lá, se haverá nisto algum valor simbólico relacionado com o facto de a França já não ser o gigante político, económico, linguístico, cultural e filosófico de outrora. Ou até mesmo indagar uma possível ligação entre a altura dos presidentes das principais potências e a sua real importância, ainda que republicana, nas complexas correlações de forças de que é feita a política internacional.
A resposta é decididamente negativa. Observemos a seguinte fotografia onde surgem lado a lado Miterrand e Kohl. Apesar das diferenças de estatura, alguém sente aqui um desequilíbrio entre a França e a Alemanha? Não. Porque Mitterrand não foi um estadista qualquer mas um estadista à maneira antiga, que agiu de acordo com o clássico modelo de fazer política, segundo o qual esta é soberana. Miterrand é, por isso, da mesma altura de Kohl ou até mesmo maior do que o próprio Kohl, não envergonhando a França perante uma velha Alemanha com mau feitio, desertinha para moer o juízo dos vizinhos com brinquedos barulhentos, sobretudo canhões. 



Ora, não é esta igualdade que vemos quando Sarkozy surge ao lado de um presidente americano. Ou até mesmo ao lado da mulher do presidente americano. Ou até mesmo ao lado da sua própria mulher.


Ou ao lado da chanceler alemã que, comparada com o anão francês, parece uma valquíria wagneriana prestes a raptá-lo para uma mítica gruta escandinava.


E porquê? Porque falta gravitas política ao petit Nicholas, tornando-se assim um símbolo da pequenez francesa, tal como Berlusconi um símbolo da insignificância italiana no plano internacional.


Depois disto, a grande pergunta que deve ser feita é a seguinte: e agora Hollande? Hollande mal começou mas já é um motivo de esperança para muitos. Não só por ser francês mas também por ser socialista numa Europa cada vez mais liberal. É verdade que nós olhamos para esta imagem de Londres (Ah, a velha Inglaterra!) e de imediato tememos o pior para a França. Mas cabe ao novo presidente francês, tal como antes a Miterrand, restabelecer a credibilidade política da França num mundo onde a concorrência é cada vez maior. E fazer com que da próxima vez que vá a Londres seja entendido de outra maneira.


Até psicologicamente pode haver vantagens em ter um presidente com a lilliputiana escala de Hollande. Eu sei que, do alto do meu metro e sessenta e cinco, sou suspeito de uma certa solidariedade corporativa como a daquelas ligações irracionais entre fumadores de cachimbo, motards ou dos tipos chamados Ferreira que uma vez por ano organizam um jantar na aldeia, eu posso estar a ser estupidamente parcial relativamente ao presidente francês. Mas tenho as minhas razões. O físico e filósofo Gaston Bachelard dedica um capítulo de “La Poétique de l’Espace”, a analisar fenomenologicamente o impacto da miniatura na consciência humana. O universo da miniatura é um universo intimista, reconfortante, seguro. Num mundo miniaturizado, o homem sente-se protegido na medida em que vive num mundo que não o esmaga ou transcende como acontece com os tubarões, os arranha-céus, as cataratas do Niagara ou o deputado Emídio Guerreiro se inadvertidamente pisar o pé de Maria de Belém. Só assim se percebe o que há de denso e imenso numa miniatura quando absorvida pela consciência. Vejam-se as casinhas do Portugal dos Pequeninos, os soldadinhos de chumbo, as bonecas, os carrinhos e comboios de brincar, as casinhas da Lego. Ficamos mesmo com pena de não nos miniaturizarmos para podermos viver nessa encantadora, feérica e securizante dimensão.
Hollande pode ser o presidente liliputiano de que a França e a Europa precisam. O pequeno Frodo que poderia ajudar a Europa a combater os mastodônticos gigantes da banca e da alta finança, o Marques Mendes francês mas sem parecer um boneco articulado. Enquanto outros políticos anónimos que dominam a actual Europa não passam de grandes pequenos homens, Hollande por vir a ser visto como um pequeno grande homem que volta a dar à França a doce voz de outros tempos.