15 julho, 2012

BLOWIN' IN THE WIND

     Marina Abramovic

Chamem-me o que quiserem, mas sou suficientemente obstinado e conservador para acreditar que o mundo deveria continuar a ser composto por homens e mulheres. O século XX bem se esforçou para  acabar de vez com a diferença entre os sexos, e se exceptuarmos questões menores como as limitações anatómicas e ergonómicas da mulher para satisfazer uma das suas necessidades fisiológicas à luz dos avanços filogenéticos do homo erectus, há, desgraçadamente, cada vez menos coisas que sejam do foro exclusivo dos homens ou das mulheres.
A gota de água que fez transbordar o copo deste meu desencanto foi a primeira página de hoje do DN. Eu sei que a imponderável alma da mulher é um dos grandes enigmas do universo e para a qual não há Teologia ou Parapsicologia que valha. E se o próprio dr.Freud, esse mineiro das cavernosas e escuras galerias da alma humana, admitiu não compreender a mulher, quem sou eu para me armar em Indiana Jones da alma perdida. Sei apenas que as mulheres são capazes de ir da melancolia à irascibilidade, do riso ao choro ou do amor ao ódio, enquanto um homem esfrega um olho. E julgava saber que, apesar de haver mulheres homicidas, sociologicamente o homicídio fosse coisa de homens. Claro que não estou a pensar nas mulheres que matam os maridos após anos de maus tratos. Compreendo muito bem esse tipo de reacção de dor e desespero. Falo antes da frieza e calculismo das mulheres que matam ou mandam matar por interesse.
Já houve um tempo em que eu acreditava que, nas mãos das mulheres, o mundo seria um lugar melhor. Ora, num século que viu as mulheres serem emancipadas, o que vimos foi as mulheres imitarem os padrões masculinos. Seja na política, nas empresas, nas instituições ou na vida social. Na horrível e moderna condenação a um isomorfismo sexual, vimos as mulheres a masculinizarem-se em vez de assumirem a sua feminina especificidade. No seu afã igualitário, foram as mulheres que copiaram os homens para depois nos dominar. Agora, chegou também a vez de os matar com frieza e calculismo e eu já começo a sentir suores frios, comichão no pescoço e a sonhar todas as noites com a senhora Merkel.
Resta-nos apenas um consolo: morrer honradamente e com orgulho. Não de punho erguido, como um revolucionário perante o pelotão de fuzilamento, mas, graças aos sortilégios da anatomia e da ergonomia, simplesmente de pé. Quer dizer, como um verdadeiro homem.