03 julho, 2012

ARTE E BELEZA


Para mim, repito, para mim, tem que existir uma necessária ligação entre arte e beleza. Sou, num plano estético, implacavelmente conservador e reaccionário. Mas também suficientemente humilde para reconhecer que não se trata de uma ligação necessária de um ponto de vista filosófico. A beleza não é condição necessária para haver obra de arte e muito menos condição suficiente. Há pinturas de Picasso, composições de Penderecki ou filmes de Godard que nada têm de belo e não são menos obras de arte por causa disso. E não é o facto de uma floresta ou o leito de um rio serem belos que fará com que sejam obras de arte. A beleza é pois um elemento contingente numa obra de arte, que pode ser ou não bela, não sendo por isso mais, ou menos, obra de arte.
Mas, tal como o Deus do Êxodo, eu sou eu. Para mim, arte e beleza andam de mãos dadas, ponto final. E podem vir com a cantiga da mensagem, da complexidade formal, da criatividade e imaginação, da profundidade, de uma obra que nada tenha de belo, que não me convencem.
Não tenho qualquer suporte teórico para me defender, nem vontade de alinhar em bizantinas discussões. Sou apenas guiado pelo meu instinto e uma veleidade caprichosa que não me apetece contrariar. Mas posso tentar explicar e é isso que vou fazer agora, partindo de um cenário puramente académico, até porque jamais faria nudismo.

Estou numa praia de nudismo e conheço uma mulher. Simpatizamos um com o outro e no dia seguinte voltamos a encontrar-nos. É uma mulher interessante, culta, inteligente e gosta de muitas das coisas das quais eu também gosto. Durante dias e dias falamos, trocamos ideias, discutimos assuntos estimulantes, sempre num clima de forte empatia  e atracção intelectual.

Finalmente, combinamos encontrarmo-nos fora da praia para tomar café, a primeira vez que irei vê-la vestida. Chego ao local do encontro e vou encontrá-la com uma camisola da selecção nacional, ainda do tempo em que jogavam o Rui Costa, o João Pinto e o Fernando Couto. Como se isso não bastasse, usa umas dessas horríveis calças de ganga horríveis que agora se vêem por aí e uns sapatos pindéricos de uma sapataria dos 999.
Sei que a minha amiga não iria perder as suas qualidades intelectuais, culturais e afectivas por causa da sua roupa. Eu, naturalmente, não iria declinar a nossa amizade, tendo muito gosto em continuar a conversar sobre certos assuntos e aprender imensas coisas com ela. Mas seria incapaz de me apaixonar por uma mulher assim. Uma coisa é simpatizar com uma mulher, tornar-me amigo dela, reconhecer o seu valor. Outra coisa é apaixonar-me e sentir o desejo de me apropriar dela.
Com a arte acontece precisamente a mesma coisa. Há obras de arte cujo interesse, profundidade, criatividade, não posso negar. Mas não são essas obras que eu persigo e das quais preciso para saciar as minhas necessidades estéticas. Há pinturas cujo valor é inegável mas que eu jamais teria na parede da minha sala ou do meu quarto. Há filmes que podem fazer pensar, filmes que podem denunciar situações sociais importantes, mas não são esses filmes que ficam alojados na minha gaveta estética e sentimental.
Mais do que discutir se a arte tem de ser ou não bela ou o que é exactamente uma obra de arte, interessa-me saber sobretudo o que quero eu de uma obra de arte. E a beleza é, certamente, o que eu quero dela. Seja através de sons, palavras ou imagens.