18 julho, 2012

A METAMORFOSE

                                                         Andre Kertesz

Lembro-me de há uns anos haver uma campanha de fomento à leitura cuja mensagem, perante a imagem de uma traça, era mais ou menos a seguinte: "Não sabe ler, mas já devorou mais livros do que você". A provocação era óbvia, tentando mexer com o orgulho de pessoas que, apesar de racionais, conseguiam ler a mesma quantidade de livros de um orangotango ou de uma doninha.
Hoje, muito sinceramente, não sei qual seria o impacto desta mesma campanha, pela simples razão de que quando entro numa livraria saio de lá com a sensação de que parecem ser feitas para serem frequentadas por traças. As traças continuam a não saber ler embora com a mesma capacidade para devorar livros. Talvez por isso  pensassem que a estratégia mais eficaz para levar as pessoas a devorarem livros tenha sido transformá-las em traças.
Já lá vai o tempo em que havia um cânone que, com alguma credibilidade, dava indicações do que seria um livro de qualidade e que livros deveriam ser lidos para que as pessoas comuns tivessem a consciência do que seria boa ou má literatura, bom ou mau ensaio. É verdade que sempre houve as Ceias dos Cardeais deste mundo, levando pim pam puns de febris consciências modernas. Porém, essas ceias de outros tempos, comparadas com os actuais pic-nics com comida de plástico, comida em pratos de plástico e com refrigerantes de plástico, mais parecem manjares dos deuses.
Infelizmente, não há insecticida que acabe com estas traças que invadem o espaço público com as suas capas horríveis e títulos que parecem todos iguais. Nunca pensei que as livrarias se tornassem cada vez mais espaços cada vez menos recomendáveis.