01 junho, 2012

A VOZ HUMANA



Em It Happened One Night [Frank Capra, 1934], as personagens representadas por Clark Gable e Claudette Colbert, embora tenham acabado de se conhecer são obrigadas a partilhar um mesmo quarto com duas camas. O cavalheiro, respeitoso, querendo naturalmente zelar pela intimidade e pudor da dama, pensa numa solução engenhosa: colocar uma manta que separe as duas camas. E ficam assim a conversar, durante um bom pedaço, ouvindo-se mas sem se verem. A cena é muito sugestiva pois apesar de se conhecerem há pouco tempo,  existem uns laivos de sedução ainda que disfarçados por umas nuvens de guerrilha e atenuados pelo sempre poder catártico do humor. A cena é sugestiva precisamente pelo jogo que se estabelece entre intimidade e pudor, entre o facto de não se verem mas, através da voz, haver a sugestão de estarem deitados e dormirem num mesmo espaço intimamente partilhado. A manta que os separa não passa, por isso, de um objecto igualmente ambíguo. Uma manta cuja opacidade e solidez faz com que funcione como um obstáculo mas que, como uma  sensual camisa de dormir transparente, não passa de uma fina e quase etérea película que, mais do que surgindo como obstáculo, acentua ainda mais a sua intimidade, aproximando-os ainda mais.
Vejamos agora como Herman Melville, no seu célebre Bartleby, descreve o modo como o advogado coloca o seu novo empregado no escritório: «Coloquei-lhe a escrivaninha junto a uma pequena janela lateral (...). Adquiri um biombo alto, verde, que isolasse completamente Bartleby do meu campo de visão, mas mantendo-o ao alcance da minha voz. E era assim que, de certa maneira, privacidade e convivência se aliavam».
Eis, pois, duas situações que, embora em contextos bem distintos, apresentam uma característica comum: a defesa da privacidade pela ocultação do corpo mas ao mesmo tempo também, a defesa da sociabilidade pela desocultação da voz, a qual, precisamente pela ocultação do corpo, adquire ainda mais importância.
Trata-se, contudo, de duas situações, uma cinematográfica, outra literária, que estão muito longe de representar o que na verdade se passa na realidade. Direi mesmo que na realidade é precisamente o oposto que se passa: a desocultação do corpo e a ocultação da voz. Seja no trabalho, na vida doméstica, no lazer, a presença do corpo, a visibilidade do corpo é um elemento fundamental. Numa relação social, familiar ou amorosa, o corpo só não está presente quando não pode estar presente. Daí as pessoas preferirem, de longe, a relação presencial, relação essa na qual a visibilidade do rosto, enquanto parte mais expressiva do corpo, tem um papel determinante.
Isto, porém, está muito longe de significar uma ausência de privacidade, a ausência de mantas ou biombos como os do filme ou do livro. As mantas e os biombos estão, neste caso, na voz. No que se quer ou não dizer, no que se omite, no que se oculta, no que se mente, no que se disfarça, nos silêncios que tanto podem afastar, repelir, como aproximar e atrair. Daí que a voz, tanto pelo que exibe como pelo que inibe, poder ser igualmente um instrumento que afasta mas também que seduz e cujos biombos tanto podem ter o dom de remeter o outro para o seu lugar próprio, afastando-se, como, no caso do filme, funcionar como uma fina película, ou com uma transparente camisa de dormir que tem o dom de apagar tudo à sua volta.