14 junho, 2012

SILÊNCIOS



É impressionante como dois filmes podem ser, ao mesmo tempo, tão parecidos e tão diferentes. Fui hoje ver O Cavalo de Turim, filme que parte do célebre episódio em que Nietzsche, perto do seu hotel durante uma estadia em Turim, se agarra ao pescoço de um cavalo que estava a ser maltratado pelo seu dono.
Será talvez o filme mais brutal e violentamente seco que vi até hoje, todo ele marcado pela evidência da morte de Deus, assim como da sua criatura predilecta, o homem. Marcado, portanto, pela evidência do niilismo, do vazio, de um mundo que deixou de fazer sentido. Mas eu estava a ver o filme e não me saía da cabeça, um dos filmes mais belos que também vi até hoje: O Grande Silêncio, filmado no interior de um mosteiro beneditino, nos Alpes franceses. 
Há semelhanças óbvias entre os dois filmes: o ritmo da narrativa, a essência plástica e fotográfica de ambos nos quais cada fotograma existe como se fosse uma fotografia que se autonomiza em relação ao filme. Mas, sobretudo, pelo silêncio de que são feitos ambos os filmes, como se o silêncio fosse a sua matéria-prima, a sua linguagem,  depurada de tudo o que é irrelevante e supérfluo face às suas identidades supremas. 
Mas, e do mesmo modo que os sons são radicalmente diversos e contrastantes, também o silêncio, sendo sempre o mesmo, pode assumir formas radicalmente distintas. Enquanto no mosteiro temos um silêncio feito de graça, de luz, de felicidade, de plenitude, de espírito santo, no filme húngaro vamos encontrar um silêncio intempestivo, feito de trevas, de angústia, desespero e ausência de esperança. Um silêncio face ao qual nem sequer o apolíneo antídoto das imagens funciona. Se o silêncio do filme é brutal e negro, as imagens conseguem ser tão brutais e negras como o seu silêncio.
Neste filme, não existe, como no mosteiro, um grande e apaziguador silêncio. Neste filme, o silêncio é infinito. Nietzsche iria gostar. Até porque morreu dentro dele.