17 junho, 2012

SER DE ESQUERDA (PARTE III)

                                                           Lewis Hine


Uma das coisas que a esquerda tem que fazer com alguma urgência é um exercício de linguagem que, neste mundo tão híbrido e ambíguo em que vivemos, lhe permita dizer exactamente o que quer e afirmar a sua identidade.
Um dos Benfica-Sporting da filosofia política é o que opõe liberdade e igualdade. Hoje não sentimos tanto este contraste porque também não percebemos muito bem o que queremos dizer quando falamos de liberdade e de igualdade. Mas é preciso perceber.
Um dos problemas do conceito de liberdade, tal como o conceito de democracia, é  ser uma bandeira tão gasta e esfarrapada que já muito pouco significa. De um ponto de vista afectivo e romântico, a liberdade continua a ser filha da esquerda. Não por acaso, um partido como o PCP fala da liberdade como se estivéssemos em 1789 ou 1974 e fosse património seu. Ora, isto é uma estupidez pois o PCP (ou qualquer partido à esquerda do PS) nunca valorizou, nem jamais poderia valorizar, a liberdade. Pelo contrário, o PCP odeia a liberdade. O PCP acredita que o facto de ter lutado contra um regime que rejeitava a liberdade significa que esta faz parte do seu código genético. Não faz. O PCP, bem alinhado com Moscovo, lutou contra um regime que negava a liberdade para edificar um outro regime que negaria também a liberdade, embora em nome da liberdade. Confuso? Sim, mas tem explicação. O PCP, assim como todos os partidos comunistas que estiveram na base de ditaduras terríveis, sempre levantaram a bandeira da liberdade. Mas uma liberdade perversamente paternalista. Uma liberdade enaltecida por regimes nos quais o Partido, o Estado, o líder iluminado, o pai do povo (ou dos povos, conforme o tamanho do pai), sabe exactamente do que esse povo precisa para atingir a felicidade, negando às pessoas a liberdade de agirem de acordo com as suas paixões, necessidades, interesses, motivações, objectivos.
Embora importante, nas actuais democracias, já não faz sentido pensar em liberdade como conceito estruturante da esquerda. Fazê-lo, não passa de mera retórica. A liberdade não é estruturante da esquerda  ou da direita. É simplesmente estruturante. No mundo actual, o conceito que mais deverá ser valorizado pela esquerda é o de igualdade. Não num sentido absoluto, obviamente. Em termos absolutos, liberdade e igualdade são incompatíveis. Uma sociedade absolutamente livre seria sempre uma sociedade profundamente desigual do mesmo modo que uma sociedade para poder ser absolutamente igual terá sempre que sacrificar a liberdade.
É claro que existem ainda traumas e complexos relativamente à ideia de igualdade. Historicamente, 1989 ainda foi ontem e há pesadelos dos quais não queremos sequer ouvir falar. Igualdade cheira a comunismo e comunismo é coisa que ninguém de bom senso deseja. Porém, em sociedades livres e abertas como as nossas, o excesso de liberdade tem contribuído para as tornar cada vez mais desiguais. A igualdade absoluta, enquanto programa ideológico, é repugnante. Mas não menos repugnante será um programa ideológico onde o excesso de liberdade põe em risco direitos conquistados ao longo do século XX, transformando o que são as naturais e desejáveis diferenças entre seres humanos, numa desigualdade induzida politicamente.
Igualdade, igualdade, igualdade. É de igualdade, de vários tipos de igualdade, que a esquerda deve cada vez mais adoptar como programa político. A liberdade, hoje, é cada vez mais um perigo e merece cada vez mais, em certas circunstâncias, ser sacrificada. No fundo, tecnicamente tal sacrifício já é inerente à própria ideia de Estado de Direito que tanto prezamos e ao Direito em geral. Que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro, não é novidade para ninguém. Há que tentar cada vez mais compreender os diversos territórios onde a liberdade tem os seus limites e a igualdade as suas legítimas ambições. E não é a direita que estará especialmente preocupada em nos ensinar.