11 junho, 2012

SER DE ESQUERDA (PARTE II)

                                                                             
 Roberto Rossellini | Stromboli [fotograma]
(continuação)

Terminei o último post, afirmando que não existe o conceito de esquerda não praticante. E admitindo que um militante do CDS, presidente de uma junta de freguesia de uma aldeia de Viseu, pode ser mais de esquerda do que grande parte das pessoas que se assumem de esquerda, votam em partidos de esquerda, militam em partidos de esquerda ou participam em manifestações ou greves de esquerda. Para explicar isto preciso de dizer o que significa exactamente ser de esquerda.
Teoricamente, repito, teoricamente, ser de esquerda pressupõe uma visão social e política alimentada por um objectivo claramente moral: o desejo de que as desigualdades que nos distinguem e separam à nascença sejam politicamente corrigidas. Quer isto dizer que a felicidade de cada ser humano não pode ficar à mercê da sorte e do azar, pelo facto de existirem pessoas mais inteligentes e menos inteligentes, mais robustas e menos robustas, mais saudáveis e mais doentes (ou deficientes), mais empreendedoras ou menos empreendedoras. A ideia de igualdade deverá ser, por isso, a ideia mais estruturante de um pensamento de esquerda, em oposição a todo o tipo de darwinismo ideológico que aceite a desigualdade como algo natural e inevitável. Por isso, à partida, uma pessoa de esquerda será alguém com sensibilidade social, sensível à felicidade e sofrimento de todos e não apenas à felicidade e sofrimento de alguns privilegiados que, por várias razões, ascenderam na pirâmide social. Mas uma coisa é pensar na igualdade enquanto conceito que nivela socialmente os seres humanos, assumindo  que o sofrimento e a felicidade devem estar equitativamente distribuídos, e não desequilibradamente dispersos por classes sociais antagónicas, ricos e pobres, patrões e operários, outra coisa é agir no sentido de contribuir para aumentar a felicidade e diminuir o sofrimentos dos outros.
Relativamente à concretização de programas que promovam o aumento da felicidade e diminuição do sofrimento dos outros, podemos ter duas visões: uma visão maximalista e uma visão minimalista. De acordo com a primeira só valerá a pena lutar por uma sociedade radicalmente diferente, na qual sejam superados todos os efeitos perversos resultantes de uma natureza humana imperfeita. Já de acordo com uma visão mimimalista, valerá a pena agir no sentido de aumentar a felicidade e diminuir o sofrimento dos outros, ainda  que pontual e condicionadamente, e que tal aumento e diminuição não impliquem uma mudança radical do tipo de sociedade em que vivemos.
Ora, é neste sentido que uma visão minimalista, que pode ser simbolizada pelo presidente de junta do CDS, que dá horas a sua vida para melhorar as vidas dos outros, se revela muito mais de esquerda do que a visão maximalista, a qual não passa de um mero devaneio ideológico ou filosófico, ou um wishfull thinking. A visão maximalista, assumida sobretudo por  muita gente ligada ao PCP ou ao BE, é uma visão preguiçosa. É com sobranceria e arrogância ideológica que muita gente do PCP e do BE olha para o trabalho de muitos, incluindo jovens católicos e formalmente de direita, que, ao longo de tantos sábados e domingos fazem voluntariado, apoiando pobres ou pessoas sem abrigo, enquanto em bares de esquerda, restaurantes de esquerda e lares de esquerda, vão fortalecendo a sua boa consciência de pessoas de esquerda, tendo como referência um modelo de sociedade que não existe nem nunca existirá.
Uma sociedade ideal tem a desvantagem de não poder ser alcançada. Mas é uma desvantagem útil pois estimula mais o pensamento, a reflexão, o sonho do que as acções concretas. E quando falo em acções concretas, estou muito longe de pensar em manifestações, greves, reuniões partidárias ou profundas reflexões de copo na mão. Nada como o desejo de uma sociedade ideal para aumentar a sua própria felicidade e diminuir o seu próprio sofrimento, ao mesmo tempo que tão elevado desígnio contribui para apaziguar a sua consciência ao nada se fazer perante o sofrimento e ausência de felicidade daqueles que seria suposto defender e proteger.