10 junho, 2012

SER DE ESQUERDA (PARTE I)


                                                                          Marc Ribou

É costume dizer que a diferença entre esquerda e direita, assim como as suas identidades, é sobretudo um problema e preocupação de gente de esquerda. Não sei se assim é. Não conheço suficientemente o mundo para saber se as pessoas de esquerda pensam e falam mais sobre o assunto e, confesso, a Sociologia é um peditório para o qual não tenho a menor paciência e nunca dei. Mas faz todo o sentido que assim seja, uma vez que ser de esquerda, tal como ser cristão, representa um desafio político e moral que implicará uma maior exigência consigo mesmo e, por isso, um maior auto-conhecimento. Serão então muito provavelmente as reminisciências de esquerda que há em mim que me levaram hoje a acordar com vontade de pensar no que é ser de esquerda.
De um ponto de vista mental, uma das características principais de muita gente de esquerda é um certo sincretismo típico do pensamento selvagem. O homem selvagem é incapaz de distinguir o natural do sobrenatural, a realidade da imaginação. Muito parecido, aliás, com o que acontece com uma criança de 5 anos que, depois de ouvir contar uma história sobre o lobo mau, tem medo de ficar sozinha no quarto com medo que o lobo apareça. Quer dizer, basta pensar para ser, basta pensar para existir. Daí uma criança facilmente imaginar que é o super-homem, o homem-aranha ou a Barbie a ir às compras. A criança vê-se assim apenas porque imaginou que é assim e, enquanto brinca, acredita que é assim.
Ora bem, muita gente, talvez até grande parte das pessoas de esquerda, funciona assim. Basta um tipo pensar que é de esquerda para acreditar que é de esquerda. E do mesmo modo que a criança veste a roupa  do super-homem para poder ser o super-homem, também o tipo de esquerda acredita que para ser de esquerda basta vestir-se como deve vestir uma pessoa de esquerda, votar num partido de esquerda de 4 em 4 anos, ser militante de um partido de esquerda ou participar em manifestações de esquerda. Há mesmo quem pense que ser de esquerda se traduz em estar duas horas num restaurante a discutir o problema da Palestina. Curiosamente, e contrariamente ao que se passa com o pensamento selvagem e mítico, no caso da esquerda não é relevante ser ou não intelectual. Daí haver várias pessoas de esquerda que acreditam que para se ser de esquerda basta andar com um livro do Tony Judt debaixo do braço ou fazer várias citações do Chomsky perante uma mulher bonita, também de esquerda, que seja  suficientemente impressionável para que horas depois esteja deitada na mesma cama do homem de esquerda.
Só que isto não é bem assim. Não basta pensar que se é de esquerda, que é desejável ou superior ser de esquerda, para se ser de esquerda. Para se ser de esquerda é preciso praticar. Ou se pratica, e então poder-se-á dizer que se é de esquerda, ou não se pratica e, neste caso, vislumbrar o que há de esquerda nessa pessoa será tão complicado como ver Braga por um canudo. Não existe o conceito de esquerda não-praticante do mesmo modo que é um absurdo dizer que se é católico não-praticante. Um absurdo e uma estupidez. O que distingue um católico de um protestante ou ortodoxo comum não é a fé num mesmo Deus mas o modo como vive a sua religião. É a acção. 
Ora, alguém só pode dizer que é de esquerda se as suas acções forem de esquerda. Quem é mais de esquerda? Um tipo do CDS, presidente de uma junta de freguesia de uma aldeia do distrito de Viseu, que dá grande parte do seu tempo e paciência para melhorar a qualidade de vida das pessoas da sua terra ou um tipo que acredita ser de esquerda só porque vota num partido de esquerda, vai a manifestações de esquerda, veste de esquerda e passa duas horas num restaurante a discutir o problema da Palestina?
Muito provavelmente será mais de esquerda o tipo do CDS, genuinamente preocupado com as vidas alheias e dando o seu contributo para um mundo melhor. Não na Palestina, que é demasiado longe, mas a começar na sua rua. (continua)