29 junho, 2012

O RETRATO DE LEONARDO


Imaginemos que a humanidade iria desaparecer e, para memória futura, pudéssemos guardar em arquivo apenas uma referência de um filme, de um livro, de uma música e também de um ser humano cuja memória pretendêssemos salvaguardar como símbolo da própria humanidade. Quanto ao ser humano, o eleito deveria ser Leonardo da Vinci, talvez o ser humano mais completo de todos os tempos. Mais do que Leonardo ser sinónimo de génio, génio é sinónimo de Leonardo. 
Daí esta notícia poder chocar. Por se tratar do retrato do próprio génio e não de alguém que o génio simplesmente retratou. Porém, o que pode parecer uma amarga condenação da implacável ampulheta, poderia também ser visto com uma performance artística subtilmente montada pelo homem de todos os ofícios: deixar preparada a destruição do seu auto-retrato, envelhecido pelas próprias garras do tempo. Não como se fosse um Dorian Gray renascentista que quisesse proteger-se da sua decadência física, transferindo-a integralmente para o retrato. Neste caso, com uma intenção mais filosófica do que hedonista: assumir a sua identidade efémera e volátil, contrariamente ao que sucede com a arte que resiste ao longo dos séculos. 
S. João Baptista, a Virgem das Rochas, Mona Lisa ou Ginevra de Benci enquanto produtos artísticos aí estão para resistir, continuando eternamente a revelar o artista, que viverá enquanto as suas obras também viverem. O homem, esse, como qualquer outro ser humano, independentemente da sua inteligência, profissão ou classe social, já nasceu preparado para a sua dissolução. Eu sei que não é disso que se trata aqui. Mas não deixa de ser engraçado pensar neste auto-retrato como sendo a grande vanitas de Leonardo