24 junho, 2012

MEMÓRIAS DE ADRIANO

                                                   Julia Margaret Cameron | Anjo da Natividade

Não surpreende que Yourcenar tenha levado o imperador Adriano a registar as suas memórias através de uma carta ao seu filho. A memória é um processo mental que liga o passado e o futuro e um filho é o futuro do pai, ainda que efemeramente. Mas tudo na vida é efémero e um filho é tão efémero quanto um pai e um pai não é menos efémero que uma nuvem, um pássaro ou a água de um rio que corre e na qual só nos banhamos uma vez. Por isso a memória também é efémera pois apenas se conserva enquanto passado e futuro se ligam. Repito, tudo na vida é efémero. Mas viver é precisamente uma permanente busca do peso e da consistência, uma luta contra a evanescente leveza de todas as coisas, e a memória a arma mais eficaz nesse processo.
Há quem o faça de um modo explícito e formal como é o caso do imperador romano através da pena de Yourcenar. Quem, graças à erudição e ao poder demiúrgico da escrita, consiga cravar preto no branco os efémeros e frágeis vapores mnésicos para mais tarde um filho ler. Mas a memória está muito longe de se esgotar na escrita e nos livros. A memória é feita de longínquos actos e gestos sem estarem necessariamente registados no papel, apenas conservados num corredor comprido e a perder de vista, com zonas  iluminadas e outras mais ofuscadas pela penumbra.
Quase toda a memória habita a alma humana como uma espécie de húmus emocional que fervilha sob os pensamentos diurnos e funcionais de que são feitos os dias, um adubo informe que fortalece os nervos, os músculos e o sangue de uma alma que é feita de frutos que se comem no presente mas que também é feita de raízes.
E que melhor processo de conservar a memória senão o processo de intertextualidade entre duas vidas feitas de nervos, de músculos e de sangue? De duas vidas, como dois textos, em que o primeiro continua a ser escrito e reescrito, consecutivamente reescrito, através do segundo. É por isso que gostamos de ter filhos. Porque queremos viver através dos filhos, renascer permanentemente através dos filhos num eterno retorno a si mesmo através do outro, roda giratória que não pára, memória que circula, que flui sobre outra memória como duas correntes que se cruzam momentaneamente num mesmo rio que caminha na direcção de um infinito e informe oceano no qual se misturam todas as vidas de todas as pessoas que viveram.
Claro que tudo não passa de uma doce ilusão. Os filhos também morrem, assim como os filhos dos filhos e a noite imensa, eterna e implacável, acaba sempre, com as suas garras invisíveis, por se sobrepor à luz do dia. Mas não é porque o chocolate da pequena chega ao fim que ela vai deixar de o comer e de sujar a sua pequena e graciosa boca. Não é possível comer o chocolate e deixar o chocolate intacto como uma pele de Chagrin, imóvel e na sua cínica quietude, numa parede. No fundo, todos nós, mais ricos ou menos ricos, mais cultos ou menos cultos, mais felizes ou menos felizes, não passamos de Esteves sem metafísica a acenar com a mão. Mas viver será sempre viver enquanto a mão levantar para acenar e a memória estiver rija para continuar a guiar-nos pelo caminho que começou no dia em que nascemos.