05 junho, 2012

LE CAUCHEMAR SUR L'HERBE


                                                        Edward Steichen | Pastoral Moonlight [1907]

The figure who dominates the ninetheenth century as an image is the tousled figure of Beethoven in his garret. Beethoven is a man who does what is in him. He is poor, he is ignorant, he is boorish. His manners are bad, he knows little, and he is perhaps not a very interesting figure, apart from the inspiration which drives him forward. But he has not sold out. He sits in his garret and he creates. He creates in accordance with the light which is within him, and that is all that a man should do. Isaiah Berlin, The Roots of Romanticism

A conclusão que posso extrair de todas estas reflexões é que não fui feito para a sociedade civil, onde tudo é opressão, obrigação, dever; o meu temperamento independente tornou-me sempre incapaz das sujeições necessárias a quem quiser viver entre os homens. Enquanto posso agir livremente, sou bom e não pratico senão o bem; mas, logo que sinto o jugo, quer da fatalidade quer dos homens, torno-me rebelde, ou antes, insubmisso, e passo a ser nulo. Quando é preciso fazer o contrário da minha vontade, não o faço, aconteça o que acontecer. Jean-Jacques Rousseau, Os Devaneios do Caminhante Solitário (sexto passeio)

Beethoven e Rousseau, dois heróis românticos. Um, sozinho no seu sótão, compondo música. Outro, sozinho no meio do campo, pensando numa sociedade na qual todos os seres humanos possam ser livres e na qual a vontade individual esteja em harmonia com a vontade geral.
Há, por isso, apesar da solidão de ambos, diferenças. Um é artista, faz arte, o outro é filósofo, escreve filosofia. E as consequências também não poderiam ser mais diferentes. A música do primeiro será sempre inocente. Não tem valor moral, político, ideológico, apenas estético. Por muito que se associem certos compositores alemães ao nazismo ou certos compositores russos ao estalinismo, a música estará sempre acima desse território demasiado humano e superficial. Altos oficiais nazis gostavam de Beethoven? Mas que culpa tem Beethoven disso? As suas sinfonias não matam ninguém, as suas sonatas ou os seus quartetos não provocam qualquer deformação moral ou política.
Já com Rousseau é completamente diferente. Tal como Beethoven, era um revoltado, um solitário. Mas enquanto Beethoven se sentava ao piano para escrever notas musicais, Rousseau sentava-se à secretária para escrever ideias. Ideias sobre o aperfeiçoamento moral, social e político do ser humano. Algumas das ideias de Rousseau até poderão ser simpáticas. Há mesmo uma atracção romântica pela noção de Vontade Geral. Mas as ideias são como segredos nucleares que escapam ao seu criador. Ao entrarem nas cabeças de pessoas que querem purificar o mundo passam a ter o mesmo efeito que têm barris de petróleo num armazém que começa a arder.
A música, a arte em geral, não são perigosas. O mesmo não podemos dizer das ideias. O romantismo deveria ficar mesmo limitado à arte. Um filósofo romântico lido por políticos e ideólogos românticos ou sonhadores pode levar a grandes pesadelos, muitas vezes sem ter qualquer culpa.
Eu continuo a sentir uma enorme simpatia pela solidão de Beethoven, sabendo que lhe devo horas de prazer. De Rousseau, confesso, gosto cada vez menos.  O ar do campo deu-lhe a volta à cabeça. O campo não é para todos. Devia estar apenas reservado a quem não precisa de pensar. Estar sozinho no campo, longe das pessoas e, ao mesmo tempo, pensar numa sociedade ideal para essas pessoas, pode ser o começo de grandes tragédias.
Eu gosto de tragédias. Mas se forem escritas por Ésquilo ou Sófocles ou compostas por Mahler, Brahms ou Schubert.