08 junho, 2012

LADO A


O processo histórico é feito de morte. De coisas que morrem para darem lugar a outras que nascem que depois irão também morrer. Se compararmos o nosso tempo com outros, rapidamente percebemos as diferenças e o que morreu sem deixar rasto. Vestuário; meios de transporte; recursos técnicos para cumprir certas tarefas, tanto caseiras como profissionais; profissões que com o tempo deixaram de existir; cidades  completamente diferentes em tudo: paisagem urbana, humana e arquitectónica.
Porém, não é só da morte de casas, objectos, roupas, instrumentos, enfim, do que é mais evidentemente visível e material, que é feita a história. Menos evidente é a morte de atitudes perante coisas que são imortais, o modo como práticas milenares, por exemplo, ouvir música, dão origem ao nascimento e morte de certas percepções, de certos gestos, de certos pequenos rituais. Insignificantes no seu tempo mas que, a posteriori , após a sua morte, se revelam importantes ou até mesmo estruturantes no modo como determinam as nossas atitudes.
Os singles em vinil são disso um bom exemplo. Um jovem que actualmente possui milhares de canções num pequeno gadget que cabe na sua mão, não pode compreender o que é um single de vinil. O que é entrar propositadamente numa loja de discos com a exclusiva intenção de comprar uma canção (o lado A) para depois chegar a casa e ouvi-la, tendo que tirar o disco da sua capa, colocá-lo num prato e, através de um gesto que requer alguma perícia, colocar o braço do gira-discos sobre o círculo negro. Ou o que é limpar o disco com um pano próprio para esse efeito. Ou limpar a agulha com uma escova também própria para esse efeito.
Mas não são apenas estes pequenos gestos que nascem, vivem e morrem. A própria maneira de ouvir música não pode ser a mesma. E digo isto, mesmo sabendo que o prazer da música ou o prazer de um canção continuam a ser os mesmos. Mas há aqui uma enorme diferença ao nível do que Italo Calvino chamou de peso e de leveza
O peso de ter uma canção instalada num objecto com uma morfologia própria, uma cor própria, uma capa de cartão que a identifica, a qual tivemos que comprar num sítio próprio para a poder ouvir, nada tem que ver com a leveza de centenas ou milhares de canções que se misturam num espaço abstracto sem rosto e identidade física, e cuja audição depende apenas de um clique. Repito, o prazer de ouvir uma canção pode ser o mesmo. Mas há uma atitude perante a canção que jamais poderá voltar a ser a mesma. A atitude perante uma canção como objecto que subsiste num mundo próprio e cujo acesso é restrito. 
Não é por acaso que um programa de rádio como "Quando o Telefone Toca" não faria hoje qualquer sentido. Um tempo em que as pessoas telefonavam para uma estação de  rádio só para poderem ouvir uma canção. Claro que, depois, ao ouvir essa canção, o prazer que se sentia não seria esteticamente diferente do prazer que sente o jovem que hoje ouve uma canção quando vai na rua a caminho da escola ou num transporte público. O que é diferente é a atitude perante a canção, atitude que implica uma predisposição mental específica, gestos específicos, rituais específicos. Isso, sim, morreu, para não mais voltar. E quando morrer a última pessoa que ouviu música desta maneira, desaparecerá também, para sempre, a memória de um modo específico de ouvir música, como já antes também desaparecera outro modo de a ouvir com a morte da última pessoa que a ouviu antes de terem aparecido os gira-discos.