25 junho, 2012

HOMEM SEM ALMA SOB A MODERNIDADE

                                                                      Elliot Erwitt

Hoje de manhã, passei cerca de duas horas a ver livros na Almedina do Arrábida Shopping. Passados os primeiros minutos comecei a aperceber-me de qualquer coisa que não batia certo naquele lugar. Não, não me refiro apenas à quantidade de lixo que infecta as livrarias do nosso tempo. A sujidade, desta vez, não se encontrava apenas ao nível dos olhos mas também dos ouvidos. E não estou a falar de uma putativa cera que eu tivesse desleixadamente esquecido nos meus, mas de uma infernal música de fundo que me atazanava os tímpanos, feita de drum n' bass, hip hop e outros garatujos sonoros, mais apropriados para fazer vibrar as orelhas numa pista de dança do que para um ouvido bem educado. A música era atroz, de facto. Mas ainda que fosse o inevitável jazz de ambientes mais alternativos ou música clássica habitualmente usada para dar alguma patine e maior gravitas ao acto de ler e de comprar livros, eu continuaria a dizer a mesma coisa. Para que raio serve a música numa livraria? Não basta já a biblioteca da minha escola onde já passam filmes, ouve-se música espiritual dos Andes, berram telemóveis e gritam professoras histéricas como se estivessem a mergulhar numa piscina?
Oscar Wilde, homem cuja invejável lucidez nunca deixa de me surpreender, afirma em A Alma do Homem sob o Socialismo, que «Em todos os tempos, o público sempre careceu de instrução. Exige constantemente que a arte seja popular, que compraza a sua própria falta de gosto, que o divirta quando se sente pesado por ter comido em excesso, e que lhe distraia os pensamentos quando o entedia a sua própria estupidez». 
Ora, isto foi dito no século XIX. Nós estamos no século XXI e nunca se venderam tantos livros como agora. Mas não me deixo entusiasmar com a estatística. É verdade que há hoje mais pessoas a ler. Mas são precisamente aquelas de quem se queixa o escritor irlandês.