09 junho, 2012

HEGEL E A PINTURA


                                                                   Giorgione | A Tempestade


Hegel, nas suas Lições Sobre Estética:

" (...) a ambivalência exterior do homem, montanhas, vales, prados, torrentes, árvores, são frequentemente escolhidos pelos pintores mais célebres, como objectos dos seus quadros, mas o que, nas suas obras de arte, constitui o núcleo da representação, não são esses objectos em si, mas a vitalidade e a alma que presidiram à sua concepção e execução subjectivas, é a alma do pintor que se reflecte nas suas obras e nos comunica, não uma reprodução pura e simples dos objectos, mas a sua própria alma e o seu lado mais íntimo. (...) Por esta tendência para a alma que, nos objectos exteriores, se manifesta somente por uma difusa tonalidade que cria em torno deles uma atmosfera especial, a pintura distingue-se essencialmente da arquitectura e da escultura e aproxima-se mais da música, formando assim uma fase intermediária entre as artes plásticas e as artes sonoras".

Não é nada intuitiva esta aproximação da pintura à música em detrimento de uma mais natural e previsível associação à arquitectura e escultura. De facto, sendo a pintura uma arte para o olho e uma projecção no espaço, estará intuitivamente muito mais próxima da arquitectura e da escultura do que da música, que não é espacial, e é feita para o ouvido.
Mas Hegel tem razão. Porque, contrariamente ao que acontece com a arquitectura e a escultura, há, na pintura, um claro processo de desmaterialização do mundo físico, no qual se perde a matéria propriamente dita (pedra, bronze, mármore, marfim, madeira, plástico), a tridimensionalidade, ou até a funcionalidade inerente a qualquer objecto. 
Enquanto uma obra arquitectónica ou escultórica são objectos, no sentido em que também são objectos uma cadeira, um copo, uma enxada ou uma árvore, a pintura, por sua vez, deixa de ser um objecto para se tornar uma representação formal dos objectos através das cores, das linhas, da luz, da perspectiva. Ora, o que se perde em objectividade, ganha-se em subjectividade.
É por isso que a pintura, enquanto cosa mentale, se aproxima mais da música, apesar da sua essência visual. O que nós vemos na pintura, cores, luz, espacialidade abstracta, não são objectos físicos, carnais. Nós olhamos para a pintura e pensamos ver a realidade. Mas o que vemos na pintura é uma gradual conquista de uma realidade subjectiva, ainda que não se trate do apogeu da subjectividade que só surgirá com a música. De qualquer modo, sem dúvida, uma clara vitória do espírito sobre a matéria. Sendo a matéria transformada em espírito, ambas passam a fazer parte de uma mesma e única substância.