30 junho, 2012

FELICIDADE A NU

                                                                            Diane Arbus

Aristóteles pesquisou e escreveu sobre quase tudo o que era possível pesquisar e escrever: animais, astronomia, lógica, retórica, teatro, política, metafísica. Mas é na sua Ética a Nicómaco que lembra que «todo o saber e toda a intenção têm um bem por que anseiam». Esse bem é a felicidade ou a vida boa. Admite, porém, que não é fácil conhecer o seu sentido, sendo assunto de muitas polémicas e divergências. Lembrei-me do texto de Aristóteles ao ler esta notícia, perguntando-me se faz sentido institucionalizar ou politizar (no verdadeiro sentido grego) a felicidade, sobrepondo-se a ONU às nossas agendas pessoais.
Naturalmente que faz. Estamos habituados a pensar a felicidade de um modo essencialmente pessoal. Mas também podemos olhar para ela sob uma perspectiva histórica, social, cultural, perguntando, por exemplo, se existem épocas mais felizes do que outras. Eu não sei se existem épocas mais felizes do que outras, mas olhando um pouco para a história, quer-me parece que nunca houve tão boas condições para ser feliz como hoje. Nunca foi tão fácil ser operário, desempregado, mulher, homossexual, criança, doente ou deficiente  como hoje. Nunca foi tão fácil ser diferente como nas nossas sociedades democráticas, livres, abertas e pluralistas. Nunca foi tão fácil viver como hoje, protegidos por um Estado Social que nos dá a mão quando precisamos: para estudar, para fazer exames médicos, para um passe social, para apoiar quem está doente ou desempregado.
Porém, continuamos sem saber bem o que é felicidade ou a poder dizer se somos mais felizes do que os nossos pais, avós ou bisavós. Porque a felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão económica e social. A felicidade não é um problema sindical. É verdade que uma pessoa pobre, feia e doente terá mais dificuldade em ser feliz mas nada nos garante que uma pessoa rica, bonita e saudável o consiga ser, características que os tempos modernos ajudaram a consolidar por via da economia e dos avanços tecnológicos.
Antes da morte de Deus as pessoas podiam não ser felizes. Mas, vivendo num mundo marcado por uma ordem e códigos objectivos, sabiam o que era preciso para dar um sentido às suas vidas. E se as pessoas falhavam, sabiam que falhavam e por que falhavam. Acrasia é uma palavra grega que exprime a dificuldade em fazer o que está certo. Exprime, no fundo, a fraqueza da vontade, mais ou menos aquilo que eu sinto sempre que estou perante um chocolate a rir-se para mim. Sei que não devia comer, mas como. E sei-o porque, embora saiba que me vai dar imenso prazer, também sei que engordo e eu não quero engordar.  Sei o que está certo mas faço o que está errado.  Isto é acrasia.
Hoje, com a morte de Deus ou com Deus meio moribundo, o problema da acrasia nem se coloca. Como posso saber se tenho uma vontade fraca, que não faço o que devia fazer, se nem sequer sei o que deveria  fazer? É esta pergunta que nunca devemos perder de vista e, por isso, agrada-me a ideia da sua institucionalização. Podemos saber hoje muito sobre animais e planetas. Mas nunca devemos deixar de perseguir o sentido das coisas. E, neste aspecto, parece que andamos todos um bocadinho perdidos. Muitas vezes contentes quando deveríamos estar tristes, tristes, quando deveríamos estar contentes.